O menino constrói e desconstrói

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Imagem: http://www.starwars.com/news

O menino, por volta de uns cinco anos, estava inquieto na sala de espera do consultório. A mãe demorava demais. Entabulei com ele uma conversa em torno da espada que  empunhava, meio desanimado.

Ele me disse que aquela era a espada do mal, do seriado Guerra nas Estrelas.

Entrei, então, nesse mundo. No poder que aquela espada poderia ter. O menino se entusiasmou e passou a falar do que a espada poderia fazer. Fazia gestos com a arma. Narrava a saga. Eu seguia alimentando esse jogo ficcional. Não havia mais tédio. Continue lendo O menino constrói e desconstrói

Meu corpo de menino – por Kuniichi Uno

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Imagem: Steve – http://aqueous-sun-textures.deviantart.com/

 

“O mundo, o universo se lança em meu corpo de menino, e ele não tem nem histórias, nem personagens. A criança não faz nada além de descrever ou inscrever a velocidade e a flutuação de tudo que se passa em seu corpo sem forma. Os dramas, os acontecimentos e as sensações que perturbam os adultos não são mais, pra esta criança, do que o movimento perpétuo dos átomos constituindo a vida”.

Huniich Uno, in A gênese de um corpo desconhecido. Tradução de Christine Greiner, com a colaboração de Ernesto Filho e Fernanda Raquel. São Paulo: n-1 Edições, 2012.

 

Na aula de jogos corporais, o menino que não podia andar

Imagem: Discovery Brasil: http://discoverybrasil.uol.com.br/
Imagem: Discovery Brasil: http://discoverybrasil.uol.com.br/

 

Na Escola Balão Vermelho, nos anos de 1980, iniciava uma nova turma com crianças entre 05 e 06 anos de idade. As aulas eram de jogos simbólicos e corporais. Foi então que surgiu, na porta do salão, um menino lindo e sorridente, com muletas e uma babá que o acompanhava na adaptação aos ambientes e atividades. E ela me contou que ele tinha paralisia em ambas as pernas. Enfim, ele não andava. Fiquei atônito: o que fazer?

Lá dentro da sala os outros meninos e meninas corriam, se jogavam uns nos outros, encontravam seus interesses, nessa busca de entrar contato com o espaço, de produzir espaço. E agora, o que eu vou fazer?

O menino tirou as muletas e sentou-se no chão. Pedi que todas as outras crianças se deitassem. Comecei a atividade assim, naquele plano baixo. E fomos brincando a aula toda. Transitava com eles do simbolismo aos jogos: éramos tubarões, isso e mais aquilo. Havia até jogo de pegar e de fugir: tudo ali, sem que ninguém levantasse e corresse. E o menino brincava à vontade.

Ninguém percebeu, ou pelo menos não comentou, que a aula foi feita para o menino que não podia andar. E quando terminamos ele me abraçou com força. Éramos cúmplices dali para a frente.

E foi um semestre inteirinho assim: brincando com todas as crianças no chão. Sem explicações, sem conversas outras. Ninguém se queixando. E as “aventuras perigosas”, como as crianças do Balão Vermelho chamavam minhas aulas, continuavam. Éramos tubarões e outros peixes. Todo dia o menino me abraçava no final de cada aula.

Foi assim.

Relato de um jogo dramático

Imagem: @Doug88888

Aqui, a descrição de um jogo dramático com crianças do 1 ano do Ensino Fundamental. A ação ocorreu provavelmente entre o final dos anos de 1970  início dos anos  80, na Escola Balão Vermelho. Resolvi manter a descrição na íntegra, como eu havia redigido na época. Junto, o relato da professora da turma, que é muito bacana. Mais do que nostalgia, vejo naquele momento princípios muito interessantes. Chamo a ateção também para as leituras que fizemos do jogo, na época. Eu mais interessado na dinâmica, no processo e no ritual. A professora, em compreender e situar o conflito temático estabelecido pelas crianças. Foi uma bela parceria: crianças, professora da turma e professor de arte.

Fico feliz de rever esse velho material. Hoje, ainda, ele é mais do nunca muito novo. Pois estabelece não um “teatrinho”, mas a experiência ritualizada, negociada e ao mesmo tempo vivida. As crianças estão jogando, atuando, resolvendo, percebendo e imaginando. Não estão se comportando num palco para um platéia. E não estão ensaiando e tampouco decorando falas.   Continue lendo Relato de um jogo dramático

Teatro antes do teatro: o brincar e a cultura das ruas

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Tive o privilégio de viver o teatro antes de conhecer o teatro. Como foi isso? Início dos anos 50, no nordeste de Minas, Teófilo Otoni. A televisão ainda não havia chegado lá. Mas já tinha ido ao cinema.

Então, isso já não era uma influência cultural? Sim, de qualquer jeito.  Mas tal matéria fílmica era muito diferente dos comportamentos representados diante do outro. Era uma janela tremulante e mágica. Vinicius de Moraes falava que a imagem projetada é como aquela pequena chama no meio da escuridão: um fascínio ancestral.

E o teatro? Eu nunca havia visto. Então, eu brincava de quê? E como se pode dizer que toda criança pequena faz teatro sem conhecer teatro? Meu avô fez para mim uma espada de madeira pequena. Vivi o tempo da feitura, do imaginário forjado ali na minha frente. Uma duração. E tive brinquedos comprados também. Revólveres que me encantavam, um ao lado do outro. Sim, os cowboys, eu os vivia intensamente. E uma espingarda de pressão com uma rolha e um barbante na ponta. Mas nada disso era  mais forte que outra coisa: o ato de brincar como poiesis. Pois o brincar antecede o brinquedo: é maior do que ele.  Continue lendo Teatro antes do teatro: o brincar e a cultura das ruas

Mãe da rua: um tempo que se foi

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Gostei muito do livro de Ettore Bottini, Mãe da rua (São Paulo: Cosac Naify, 2007). Bom para ler junto com os filhos. Acho que funciona mais com meninos. As brincadeiras e o mundo de vida ali apresentados concernem a esse universo. Como diz o autor: “este é um livro para ex-meninos. Se as meninas quiserem, que escrevam o seu”. Acredito, porém, que ex-meninas interessadas na cultura lúdica das ruas vão se esbaldar e, talvez, um dia vão querer escrever o seu.

“Vai brincar na rua, moleque! – disse a mãe. E nós fomos. É claro que a frase foi pronunciada numa São Paulo já distante no tempo, quando a profissão das mães era declarada no recenseamento como ‘prendas domésticas’, quando as ruas comportavam com folga o número de automóveis e quando ainda não existia a neurose atual da violência urbana.”

Assim começa o livro de Ettore Bottini. É farto de imagens, descrições de brinquedos e brincadeiras praticadas por meninos naqueles tempos idos. Ele descreve, além disso, os territórios, as negociações entre os bandos e as pequenas armas. Uma delícia rever tudo isso.

E uma curiosidade: fiquei sabendo de um jogo, o Taco, que tem algumas semelhanças com um jogo muito comum nos anos 60 e 70, que era o Bente altas, licença para dois. Parece que o primeiro era encontrado em São Paulo e o último em Minas Gerais. Ao que tudo indica, ambos os jogos têm influência do Beisebol.

Por fim, são essas saudades de um mundo onde o conhecimento e a sociabilidade passavam antes pelo sensível e que, por isso mesmo, tanto se assemelhava à arte. Recomendo, muito.

Mais referências

Bente altas. Mapa do brincar.

Quando brincar é lembrança que dói

Quadrinhos de Luís Felipe Garrocho: Bufas Danadas
Quadrinhos de Luís Felipe Garrocho: Bufas Danadas

Essas tirinhas me tocam duas vezes. Uma, pela história e pela arte. É feita diretamente no computador. Tem essa linha espontânea – quer dizer, não muito controlada – pela tecnologia, posso dizer, rudimentar mesmo. Coisas de quem curtiu o momento de desenhar no Paint – um programa de poucos recursos. E o resultado é essa coisa linda, que explora as próprias limitações do meio. Que se tornam suas possibilidades, seu plano de invenção. E o modo como cria suas histórias: um jeito de produzir anticlímax – como o Felipe me disse um dia. Aqui, o anticlímax é um retorno do primeiro quadrinho, mas que volta diferente. A outra coisa que me toca, eu deixo sugerida, nas linhas que se seguem.

Depois de tudo, esse é também um anticlímax no sentido de quebrar as imagens tão previamente construídas sobre o brincar. Uma idealização, muitas vezes. Aqui, o brincar também tem sua dor. Aliás, não poderia deixar de ser isso. O brincar, intercalado entre dois quadros: o de ficar ali, no sofá, diante da TV e o divórcio dos pais. Interessante como as imagens sequenciais abrem sentidos que não se fecham. E eu tenho cá minhas leituras: pela criança que fui, e por me sentir parte dessa história de Felipe. Se eu vi um menino brincar e construí algo disso, agora tudo se desfaz e refaz sob outros signos, outras luzes.   Continue lendo Quando brincar é lembrança que dói

Uma geração de analfabetos motores

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Imagem do filme Wall-e: as pessoas já não se movem mais

 

A ausência de contato físico continua a se impor entre pais e filhos. E assim vão surgindo seres menos afetivos, menos livres e sem desejo pelo movimento. Ou, então, desorientados nos seus espaços de ação. Tenho observado que muitos pais, ao adquirirem a cadeira para transportar bebês em veículos, aproveitam para levá-los também de um lado a outro nos passeios. Vi um bebê sendo levado assim, flutuando no espaço, olhando aquele imenso céu azul. Lembrei-me, logo, do planeta Wall-e, o desenho da Pixar-Disney, do robozinho que volta à estação espacial, onde estão todos os humanos, e os vê entregues a uma letargia e total falta de movimento.

A cadeirinha é uma exigência da lei, a fim de dar segurança aos bebês e crianças pequenas. Além disso, é prática. Porém, não podemos esquecer que o mais importante é o toque. Diferente disso é quando levamos a criança coladinha no corpo, com um suporte, numa longa caminhada ou passeio. Mas deixá-la, de início, sem contato corporal, é um grande equívoco.   Continue lendo Uma geração de analfabetos motores

A criança, o circo e a educação

Imagem: Kamshots

Não sei por que as escolas insistem tanto que as crianças façam apresentações de teatro para a comunidade de pais, com recitações, imitações de show-business e do padrão interpretativo das novelas de televisão. Talvez, a explicação esteja aí mesmo: a escola como reprodução social. No entanto, existem tantas expressões presentes na cultura popular, mais interessantes, mais vivas. Pois se trata, afinal, de como articulamos ritual e imagem.   Continue lendo A criança, o circo e a educação

Há vida fora do brinquedo industrializado e dos shopping centers

 

Os dois meninos estão com onze anos. A moda é uma arma de brinquedo, que atira projéteis de plástico. O meu filho tem uma dessas, pequena, tipo revólver. Sim, acabei comprando para ele, de tanto insistir. Mas não só por isso: lembrei-me da alegria que me tomou quando ganhei de presente os meus primeiros revólveres de cowboi. E também das brincadeiras de assalto ao trem pagador em cima dos murinhos de nossas casas, nos anos 60.  E me lembrei ainda  dessa discussão meio estéril sobre a possibilidade ou não desses brinquedos induzirem a violência. Por tudo isso, pensei: vamos acompanhar isso… Ele queria uma arma enorme, mas aí eu achei que era muito exagero.

E então, ocorre que o amigo de meu filho veio passar o fim de semana com a gente. E trouxe junto uma enorme arma de brinquedo, uma imitação dessas que aparecem nos filmes e jogos eletrônicos. Um terror de arma! Aliás, uma estupidez. Não pelos motivos que estão por aí em circulação, mas simplesmente porque é um trambolho que impede qualquer imaginação. Meu diagnóstico é simples e direto, avesso ao cunho moralista: o brinquedo industrializado brinca sozinho!  Além disso, a arma de brinquedo era de um exagero só: impossível andar normalmente nas ruas sem chamar a atenção. Mas a coisa não se encerra aí: há toda uma cultura do tédio que é preciso driblar. E é disso que eu pretendo falar.   Continue lendo Há vida fora do brinquedo industrializado e dos shopping centers

o brincar e suas linhas de errância – artes cênicas e educação