31 de janeiro de 2010, 20:15

Imagem: Tomás Rotger
Estou às voltas mais uma vez com a questão: como se dão as passagens entre um plano de sensibilidade, próprio da cultura lúdica da infância, e o plano de arte?
Esses três planos não existem em relação de continuidade e nem se apresentam como coisas idênticas. Porém, todo um movimento da arte contemporânea tem nos levado a repensar as relações entre a arte e a vida. A separação entre arte e vida foi, durante muito tempo, algo dado. Do lado da vida a instabilidade, o efêmero, o que se desgasta e se perde. Do lado da arte, o que se conserva (pelo menos no espírito), o que transcende nossa existência precária. São essas fronteiras que passam a ser questionadas, tornando-se menos rígidas. Continue lendo ‘O brincar, o sensível e a arte’ »
22 de dezembro de 2009, 10:51

No livro Ideograma: lógica, poesia e linguagem, Haroldo de Campos (organizador e um dos autores) aborda entre outras questões, o pensamento e a trajetórica intelectual de Ernest Fenollosa, traçando, inclusive, uma breve abordagem dos elementos que ele apresentou como educação para arte. Fenollosa foi um pesquisador voltado para a poesia (Pound), os ideogramas e arte oriental.
Sublinho as duas linhas principais dessa visada: a ênfase na atividade criadora e não-imitativa e no estudo da composição. Tudo guiado por uma perspectiva relacional. Fenollosa foi inovador para sua época, quando desmontou preconceitos contra a compreensão das artes e do pensamento chinês e japonês. Alguns o consideram precursor da moderna antropologia. Continue lendo ‘Arte-Educação e Ernest Fenollosa: do caderno de anotações (1)’ »
21 de novembro de 2009, 17:33

Imagem: Amanda Please
Perguntamo-nos o que é aprender e como se pode aprender. Mas por que queremos ou devemos aprender? Os animais aprendem desde cedo a sobreviver. Nós humanos somente podemos contar, de início, com nossa fragilidade, nossa inadaptação, nossa dependência da cultura dos cuidados, que é também matéria e veículo de expressão e conhecimento. E vamos em busca de algo! Mas para quê?
Ciência, arte, filosofia e amor constituem nossos aprendizados. E assim adentra-se, seguindo Gilles Deleuze, na obra de Proust, Em busca do tempo perdido. Trata-se, para Deleuze, de uma “busca da verdade”. Pois, se a obra “se chama busca do tempo perdido é apenas porque a verdade tem uma relação essencial com tempo”. O prazer decorrente das nossas buscas, diz Deleuze, é um prazer pela verdade. No entanto, não temos a condição natural de buscar a verdade. Deleuze mostra, a partir de Proust, que “nós só procuramos a verdade quando estamos determinados a fazê-lo em função de uma situação concreta, quando sofremos uma espécie de violência que nos leva a essa busca”. E completa dizendo que não se encontra a verdade naturalmente, sem um esforço de autorecriação, posso dizer. Para Deleuze “ela se trai por signos involuntários”. Continue lendo ‘O aprendizado: Proust visto por Deleuze’ »
9 de novembro de 2009, 14:02

Volta e meia deparamo-nos com o tema da violência e da agressão nos jogos corporais e simbólicos das crianças. Nesta hora perguntamo-nos sobre os limites entre realidade e ficção. E mais: em que medida tais ficções, supondo que estejamos nesse campo, acabam por influenciar o comportamento real? Questões que se fazem recorrentes, principalmente nas práticas do Teatro-Educação, quando o real e o imaginário parecem se misturar. Ocorre de encontrarmos esses temas violentos e agressivos nos desenhos das crianças. Veja, por exemplo, as imagens em tela desenhadas por uma criança de 07 anos de idade: armas, ataques e batalhas, sangue escorrendo, terror… No teatro isso é mais “dramático”, justamente porque os corpos estão ali, em interação. A partir de Peter Slade (do seu já clássico O jogo dramático infantil), podemos entender que, no primeiro caso, o jogo é projetado (no papel, quando se trata de desenho, ou com objetos e bonecos). E nos jogos simbólicos e corporais, o jogo é pessoal. Nestes últimos, estamos envolvidos de corpo e alma. E então, nos perguntamos mais uma vez: qual a natureza desses jogos corporais e simbólicos, quase sempre carregados de tais cenas agressivas e violentas? Continue lendo ‘Os jogos corporais e simbólicos da criança: entre a ficção e o real’ »
15 de setembro de 2009, 20:17

Outro dia pude vivenciar uma experiência de teatro performativo com crianças. O que vem a ser este tipo de criação cênica e corporal? Antes de tudo, trata-se de um plano contaminado pela Arte da Performance. E neste caso deparamo-nos, ainda, com as inúmeras tentativas de classificação. Porém, mais intenso e expressivo é pensar por devir, limiares e transformações… Isso não nos impede, evidentemente, de buscar definições. Não por contornos num sistema de encaixe, mas por vizinhanças e variações contínuas. Ou seja, fazendo-se em movimento. Continue lendo ‘Teatro performativo com crianças’ »
15 de agosto de 2009, 18:32

Imagem: Ana Cotta
Outro dia, voltei a brincar de esconde-esconde. Eram três meninas e um menino. Como eles não se conheciam, encontravam dificuldades para estabelecer contato. Então, sugeri que brincássemos de esconde-esconde. E fui convidado a brincar também. Há muito não me envolvo com as sensações desse jogo. Desde quando? Nem me lembro… A brincadeira em tela é toda uma coisa de tempo, duração e linhas de percepção. Aqui, mais do nunca, estamos vivendo o ser ou não ser percebido. Continue lendo ‘Brincar de esconder: um modo de percepção’ »
19 de julho de 2009, 23:02

Imagem por Fily
Como não recair na nostalgia quando falamos de uma cultura lúdica da infância? O movimento retroage. E nos encontramos, assim, no território seguro de uma eterna repetição.
Ir além da nostalgia é a tarefa cotidiana daqueles e daquelas que têm a ludicidade da criança por tema e paixão. Em busca de algo que a lembrança não consegue abarcar mas que é pura memória e jogo vivo de acasos e afetos.
Sempre digo que a infância tem uma altivez inexprimível. E uma dor e alegria que a acompanham. A criança está submetida ao adulto, ao que ele impõe ou antepõe para a configuração do mundo. Mas a criança, mesmo quando sofre a ação adulta, tem um sentido de sobrevivência no futuro. O adulto está cercado e por isso quer da criança sua adesão moral. Ocorre que a criança habita frestas e hesita entre ações úteis. Nisso reside seu poder e sua superioridade.
Continue lendo ‘Cultura lúdica da infância: além da nostalgia’ »
17 de junho de 2009, 17:13

Muito legal a iniciativa do blog da Folhinha ao criar o projeto Mapa do Brincar. Tanto as pessoas (adultos, crianças etc.) podem enviar relatos de suas brincadeiras quanto instituições. No site há todas as informações para participar do projeto. A iniciativa é interessante porque contribui para a socialização da cultura lúdica, como é praicadat por grupos humanos, épocas diferentes etc.
No blog há uma referência muito bacana às Meninas de Sinhá, de Belo Horizonte. E é preciso dizer que o co-criador do album Tá Caindo Fulo é o músico, pesquisador cênico e brincante Gil Amâncio. Lembro-me quando Gil resolveu dedicar-se também ao grupo de terceira idade que se reunia no Centro Cultural Alto-Vera Cruz, pesquisando principalmente as canções de roda. O resultado disso é o cd premiado.
Pelo blog do projeto você toma conhecimento também de muitas brincadeiras e de como as pessoas brincam.
Então, fica o convite.
Mais referências:
- Regulamento do Projeto Mapa do Brincar
- Ficha de inscrição Projeto Mapa do Brincar
- Vamos brincar de quê? Por Quintarola (Cláudia Souza)
- Vivo ou morto? Por Quintarola (Cibele Carvalho)
- Tempo de brincar de quê? Por Luiz Carlos Garrocho
6 de junho de 2009, 09:51

Brincando na chuva. Autor: Dim
Dim é um artista brincante. Como ele mesmo diz: “brinca de fazer brinquedos artesanais”. E isso há quarenta anos! Publico a seguir um pouco de sua história com o brinquedo, o brincar e a arte, a partir de uma mensagem que ele me enviou. Uma história muito bonita, de encher a vista.
João-teimoso: persistência e alegria
“Um dos brinquedos que eu mais gosto é o João-teimoso, porque ele traz a idéia de persistência, de nunca desistir dos nossos ideais. Ele foi um dos primeiros brinquedos que conheci, foi na feira de Camocim, a pedra. Chamava-se pedra porque era uma feira no calçamento mesmo, e tinha um pano estendido no chão e alguns brinquedos, mané-gostozo, rói-roi, na época conhecido como besouro. (…) E tinha um brinquedinho com umas orelhinhas pra cima, que parecia um coelho: era todo enfeitado com papel de seda e pintadinho, a gente derrubava e ele voltava, e eu gostava demais desse brinquedo porque achava interessante ele ir e voltar. Aí eu desmontei e descobri que tinha um peso ali em baixo, foi assim que descobri o João- teimoso. Até hoje ele está em tudo nos meus trabalhos. Continue lendo ‘Um artista brincante: Dim’ »
17 de maio de 2009, 22:25

Imagem: por Moontan
Por um desvio suave do dia, passei a pé pela rua onde morei desde a infância, quando me mudei para Belo Horizonte no início dos anos 60. Parei na esquina e fiquei um momento em silêncio. Sempre digo que o silêncio é uma estratégia de escuta, de recepção, de emergência de sensações outras. Assim, vieram coisas. Algumas lembranças logo apareceram. Emoções fortes surgiram.
Permaneci quieto.
A minha árvore ainda está lá. Menos a casa, que virou, com mais duas outras, um enorme prédio.
E vieram também lembranças puras. Como explicá-las? Elas não figuram. Mantém em suspenso qualquer atualização: estão lá, podem advir, mas permanecem ausentes. Armazém de coisas ainda não-coisas. São essas as forças que nos garantem em momentos difíceis, principalmente quando temos de nos inventar mais uma vez. Assim vejo a infância também: não o que se encaixa numa classificação das imagens registradas, mas aquilo que se abre para o futuro.
Continue lendo ‘Memória: armazém de coisas ainda não-coisas’ »