A criança pequena é egocêntrica? (1)

Imagem: Arquera

Durante muito tempo acreditei na ideia de um egocentrismo infantil. Como fui um leitor de Jean Piaget e o construtivismo havia se tornado uma linha determinante e também hegemônica em educação, tive essa ideia por princípio inabalável. Um dia, quando dava uma conferência sobre teatro e educação, trabalhei com a noção piagetiana de que o símbolo não seria descentrado – daí a noção de egocentrismo infantil. Uma educadora me questionou: mas a criança quando brinca – e ela se referia aos jogos simbólico-corporais infantis – envolve-se sim com ou outro.

Foi um choque muito importante para mim. E que fez descarrilar toda uma linha de pensamento em teatro e educação. Mais tarde, sofri outras transformações, passando a operar com outros planos de criação. Não mais a noção de um progresso, mas sim de uma volta ao que a criança pequena traz.

A teoria piagetiana mostra que a criança pequena não socializa o símbolo, daí a ideia que não é passível de uma comunicação teatral. Algumas práticas de jogos teatrais têm por base, para dar um exemplo, essa linha evolutiva: do simbolismo para o signo, do mais motivado para o mais socializado, mas preservando-se elementos motivados no final da linha. Lógico, pois se trata de arte. No entanto, temos aí toda uma linearidade de extração cognitiva, no caso da psicopedagogia. E toda uma via de submissão à representação, no caso do teatro.

As construções são muito sólidas: de um eu centrado a um eu descentralizado e socializado. Acreditamos estar em posse de uma “verdade”. Quanto mais que ela se apoia na chamada revolução copernicana do eu, baseada em Kant.

Propomos, de início, revirar esse jogo: o superior encontra-se não mais na ascendência, mas no começo e no mundo de baixo. Trata-se de uma inversão de paradigmas, seguindo o pensamento do biólogo e filósofo Francisco Varela, quando afirma ser necessário uma retomada do concreto, invertendo as “posições do perito e da criança na escala de desempenho”. Segundo Varela:

“Ficou claro que a forma de inteligência mais profunda e fundamental é a de um bebê, que adquire a linguagem a partir de emissões vocais diárias e dispersas e delineia objetos significativos a partir de um mundo não especificado previamente.”

A outra linha de ataque é o perspectivismo nietzschiano. Não se acerca progressivamente de uma possível verdade. E no caso da arte, como supor um possível “progresso”, indo do simbolismo infantil (jogo dramático) às formas mais “evoluídas”, como o jogo teatral? Ao contrário, não há progressão linear, mas sim entradas – ou perspectivas – distintas.

Outro dia deparei-me com um trecho de Diferença e Repetição, de Gilles Deleuze, que justamente questiona a noção de egocentrismo infantil:

“Não é sério falar de um egocentrismo da criança. A criança que começa a manusear um livro por imitação, sem saber ler, nunca se engana: ela o põe sempre de cabeça para baixo, como se o estendesse a outrem, termo real de sua atividade, ao mesmo tempo em que ela própria apreende o livro invertido como foco virtual de sua paixão, de sua contemplação aprofundada. Fenômenos bastante diversos, como o canhotismo, a escrita em espelho, certas formas de gagueira, certas estereotipias, poderiam ser explicados a partir desta dualidade de focos no mundo infantil. Mas o importante é que nenhum desses focos é o eu. É com a mesma incompreensão que se interpretam as condutas da criança como dependendo de um pretenso “egocentrismo” e que se interpretava o narcisismo infantil como excludente da contemplação de outra coisa.”

Vi o meu filho mais novo, entre 1 ano e meio e 2 anos, brincar com um objeto e ao mesmo tempo produzir endereçamentos. Palavras e ações se concatenavam, criando um sentido, configurando um mundo de experiências. Tornar esse acontecimento como pertencente a um encadeamento linear – do faz de conta infantil ao real – é simplesmente sobrecodificá-lo.

A ideia de um egocentrismo infantil não consegue dar conta dessas perspectivas. Só consegue pensar em termos de linearidade, superação progressiva e construção em direção a um futuro mais adaptado. Não estamos, com isso, afirmando tratar-se o jogo infantil de teatro, na sua acepção moderna. O que seria aceitar os pressupostos da noção de egocentrismo infantil, mudando apenas de direção. Aliás, essa questão não tem a menor importância. O texto de Deleuze nos traz uma perspectiva outra:

“O essencial é a simultaneidade, a contemporaneidade, a coexistência de todas as séries divergentes em conjunto. É certo que as séries são sucessivas, uma “antes”, outra “depois”, do ponto de vista dos presentes que passam na representação. É mesmo deste ponto de vista que se diz que a segunda se assemelha à primeira. Mas já não é assim em relação ao caos que as compreende, ao objeto = x que as percorre, ao precursor que as põe em comunicação, ao movimento forçado que as transborda: é sempre o diferenciante que faz com que elas coexistam. Encontramos várias vezes este paradoxo dos presentes que se sucedem ou das séries que se sucedem na realidade, mas que coexistem simbolicamente em relação ao passado puro ou ao objeto virtual. Quando Freud mostra que um fantasma é constituído sobre duas séries de base, pelo menos, uma infantil e pré-genital, outra genital e pós-puberdade,é evidente que estas séries se sucedem no tempo, do ponto de vista do inconsciente solipsista do sujeito posto em causa. Pergunta-se, então, como dar conta do fenômeno do “retardo”, isto é, do tempo necessário para que a cena infantil, suposta originária, tenha seu efeito apenas à distância, numa cena adulta que se lhe assemelha e que se chama derivada. Trata-se bem de um problema de ressonância entre duas séries. Mas, precisamente, este problema não é bem estabelecido enquanto não se leva em conta uma instância em relação à qual as duas séries coexistem num inconsciente intersubjetivo. Na verdade, as séries não se repartem, uma infantil e outra adulta, num mesmo sujeito. O acontecimento infantil não forma uma das duas séries reais, mas, antes, o sombrio precursor, que põe em comunicação as duas séries de base, a dos adultos que conhecemos criança, a do adulto que somos com outros adultos e outras crianças.”

A ênfase passa para a experimentação e para as linhas de errância do brincar: para um plano de coexistência das séries.

Referências –

VARELA, Francisco. O reencantamento do concreto. In: Cadernos de Subjetividade/Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP – São Paulo: Editora Hucitec/Educ, 2003.

Deleuze, Gilles. Diferença e Repetição. Tradução de Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

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