Arte-Educação e Ernest Fenollosa: do caderno de anotações (1)

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No livro Ideograma: lógica, poesia e linguagem, Haroldo de Campos (organizador e  um dos autores) aborda entre outras questões, o pensamento e a trajetórica intelectual  de Ernest Fenollosa, traçando, inclusive, uma breve abordagem dos elementos que ele apresentou como educação para arte. Fenollosa foi um pesquisador voltado para a poesia (Pound), os ideogramas e arte oriental.

Sublinho as duas linhas principais dessa visada: a ênfase na atividade criadora e não-imitativa e no estudo da composição. Tudo guiado por uma perspectiva relacional.  Fenollosa foi inovador para sua época, quando desmontou preconceitos contra a compreensão das artes e do pensamento chinês e japonês. Alguns o consideram precursor da moderna antropologia.

Numa síntese da educação para a arte defendida por Fenollosa, Haroldo de Campos destaca os seguintes elementos:

– Desenvolvimento das habilidades para a composição;

– Faculdade criativa como não-imitação;

– Configuração das relações (em oposição ao realismo ortodoxo);

– Estudo estrutural (no lugar do decorativo, convencional e mecânico).

A orientação estrutural tem a ver com os métodos empregados pelos orientais antes da influência renascentista, que surgirá nos períodos acadêmicos.  Faço uma conexão com os ensinamentos de Zeami sobre o Teatro Nô: a flor tem uma aparência (uma forma) e uma estrutura (sua energia interna, que a sustenta). Podemos estabelecer relações entre a mimese tomada como imitatio (por influência ocidental e clássica), com a mimese entendida, ao contrário, como análogo das forças geradoras da natureza. Caminho esse que dará, por exemplo, nas pesquisas corporais mais recentes da arte do ator.

Fenollosa observava que os orientais começavam, desde cedo, pela expressão pessoal  na avaliação das sutilezas das relações e não pela imitação, como predominou no ocidente. Haroldo de Campos chama a atenção, seguindo Fenollosa, para característica não-imitativa da arte japonesa antiga. Não se têm a idéia difundida no ocidente, depois imposta aos orientais, de que a arte representa um mundo. Para o oriental, arte é composição estrutural e não um retrato ou referente para algo externo. Eisenstein foi outro artista que bebeu nas fontes dessa cultura, incluindo seu parceiro e um dos mestres do teatro russo moderno, Meyerhold.

Ideograma nos traz exemplos maravilhosos  sobre as conexões entre arte, poesia, linguagem e  pensamento. Um livro a que estarei sempre retornonando para o aprofundamento dessa via compositiva na formação em arte.

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Porém, algumas pessoas empobrecem o espírito e me dizem que “não somos orientais” e que, portanto, não podemos nos apropriar de ensinamentos oriundos desses povos. Já me disseram isso também sobre a nossa cultura indígena. Esquecem que estamos num mundo interligado. Poderia, por exemplo, lembrá-las do movimento contrário: de como a dança expressionista alemã influenciou ou Butoh. Ou de como Rembrandt, cujas aquarelas eram contrabandeadas para o Japão no período Edo, apesar do fechamento deste,  influenciou artistas japoneses como o grande   Hokusai.

As idéias de Fenollosa são norteadores para uma prática em pesquisa, criação e ensino, seja qual for o contexto. Afinal, a questão essencial, quando se trata de formação para a arte, é a de saber como organizar a sensibilidade para a criação.  E vejo, agora, no meu caderno de anotações, a importância desse livro precioso que é Ideograma. Algumas das idéias presentes no livro me levaram a defender, no ensino de teatro, que a matéria “interpretação”  fosse substituída por “composição”. E foi por esse caminho que, entre outros, levou-me  aos  estudos compositivos.

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