Todos os posts de Luiz Carlos Garrocho

Pesquisador e criador cênico, arte-educador e militante estético-cultural.

o mundo de cultura da infância acabou?

Tarde fria do mês de julho, com um céu azul e sem nuvens. Vejo três crianças brancas, descendo a rua de um bairro zona sul, acompanhadas de uma senhora. As idades variam entre os 07 e os 10 anos mais ou menos. Estamos no período de recesso escolar – antigamente chamado de férias porque era o mês inteiro e não somente esses quinze dias encolhidos. O que eu constato? Muito provavelmente, esse grupo humano seguirá para algum algum shopping center. Ou, no melhor das hipóteses, para alguma pracinha cujos espaços voltados ao brincar já são tão delineados – pouca margem para a indeterminação. Talvez uma casa onde tenha quintal? Difícil isso acontecer hoje em dia.

Essas crianças não vivenciam o que eu pude viver: o mundo de cultura lúdica da infância – que prolifera nas ruas, nos terrenos baldios, nos espaços ainda determinados pelo uso planificado. Não existem mais terrenos baldios, e os que ainda resistem são cada vez mais raros e dispostos mais para as populações periféricas. Ali se instalavam os circos, surgiam os campos de futebol, se reuniam os meninos e as meninas para viver suas narrativas de corpo, ficção e jogos. Nas fases e faixas de transição, quando se instalavam as construções, os dutos e pavimentações, ainda assim esse era um mundo a ser habitado pelo brincar – até que logo se definia um uso que não cabia mais a infância e sua cultura lúdica.

Fui um garoto selvagem, se comparado àqueles meninos. Transitava entre os mundos de dentro – de casa – e o mundo de fora – as ruas e os terrenos baldios, além daqueles lugares em que a natureza crescia um pouco ainda indomável. Vivíamos mais no mundo extra-muros do que no interior dos espaços fechados. Quando chovia, era uma tristeza sem fim e ao menor estio, já estávamos nas ruas e nos espaços. Até o final dos anos de 1960, o meio natural e o meio habitado eram mais contíguos e a realidade das ruas era um convite irrecusável.

Cresci em meio à cultura do mundo das ruas, em meio à situações difíceis, por onde inventava com meus amigos os meus próprios brinquedos e brincadeiras. E por onde aprendia também a negociar para sobreviver – e como o gato, passar ileso do muro ao chão e do chão ao muro, para lembrar a poesia musicada de Vinícius de Moraes. Nem sempre conseguia, pois machucar no mundo e ser nele machucado por alguém era parte do roteiro cotidiano que se escrevia no inesperado de sempre.

Tom Sawyer, o personagem de Mark Twain, foi o alter ego da minha infância. Curioso que ao longo de tantos anos, com tantas mudanças, com tantas coisas perdidas, esse livro nunca me deixou. Presente de minha mãe, que me dava livros, preocupada com minha dificuldade em processar o mundo da escola – menino selvagem vindo do nordeste mineiro, acostumado às fugas. O livro foi o número 7 de minha primeira biblioteca. Sim, eu podia transitar entre aventuras de personagens e aventuras nos espaços indeterminados.

Tom Sawyer é um menino por volta dos seus 10 anos, pobre, órfão de pai e mãe que mora com uma tia e um primo por demais ciumento. Suas andanças atravessam mundos diferentes e que se excluem mutuamente: de um lado os mundos da casa, da escola com sua rigidez e a missa dominical e do outro lado o mundo dos seus colegas de rua e de escola, os negros e principalmente o menino Huckleberry Finn (que deu nome a um livro posterior), que mora nas ruas e, completamente marginal, é filho de um homem bêbado que sempre o castiga. Um pequeno trecho de um diálogo entre Tom e Becky, a menina por quem é apaixonado:

– Gosta de ratos, Beck?

– Detesto ratos!

– Também eu – vivos! Falo de ratos mortos, para os fazer regirar atados a um barbante.

– Não, nem assim! Não gosto de ratos de jeito nenhum. Do que eu gosto é de chiclete.

– Eu também. Quem me dera ter um agora!

– Pois eu tenho. Quer mascar um bocadinho? Ms tem de devolver logo – e puseram-se a mascar a mesma goma, ora um, ora outro, sentadinhos no banco, a balançarem as pernas.

– Já esteve no circo? – perguntou Tom. (…)

Volto-me para os meninos que descem a rua com a senhora, vivendo numa classe social e em ambientes protegidos, apartados da realidade social do país, sem convívio com meninos e meninas negras. Ou seja, em ambientes racialmente segregados, quando quando os negros constituem a média de 60 % da população brasileira.

Que fabulações, aventuras e narrativas essas crinças, habitantes dos condomínios fechados e dos shopping centers podem produzir? Que brinquedos e brincadeiras elas podem viver quando respiram somente espaços confinados?

Então, eu me pergunto: será que a cultura lúdica da infância morreu? Pois, com exceção das regiões periféricas da cidade, não existem mais vazios e terrenos baldios e campos de indeterminação e transição a serem habitados por crianças, longe dos olhares vigilantes dos adultos e fora dos usos que somente visam os fins. Pois, para lembrar o escritor Bartolomeu Campos Queirós (1944-2012), há uma diferença entre a criança que acende ao mundo como consumidora de cultura e aquela que se pauta por ser produtora de cultura. Uma cultura lúdica, dada aos atravessamentos, às transições, ao continuum entre espaços heterogêneos, às misturas e ao convívio indeterminado e aberto.

Num mundo de cercas e muros que se erguem, será que essa cultura acabou? Não serão esses, que descem a rua, sem sujar as mãos e se misturar com outros corpos, que estarão erguendo no futuro tantas outras barreiras?

Como se pode crescer e se formar num mundo onde a diferença não prolifera e não reivindica um status de igualdade? A conversa é infinita… Continua.

A criança e o movimento

Imagem: Traces – por Micagoto

Novamente pude observar crianças brincando sozinhas, isto é, sem direcionamentos por parte de adultos. Estava no Centro de Cultura do Banco do Brasil de Belo Horizonte, fazendo uma refeição leve no início da noite, sentado em um dos bancos dispostos no amplo pátio interno do prédio histórico. Nele, duas meninas por volta de quatro a cinco anos, brincavam. Provavelmente pai e/ou mãe estavam ali, numa das mesas externas do café.

O que essa breve observação me trouxe?  Ela me inseriu mais uma vez no motivo recorrente de minha caminhada nas artes da cena: a criança como inspiração – e não o contrário, querer ensinar teatro e/ou dança para crianças.  Não que uma prática pedagógica não possa ocorrer nesse sentido, é que ela teria outras bases.  Continue lendo A criança e o movimento

O movimento e o caminhar como conhecimento

Na introdução de Ways of Walking: ethnography and practice on foot ( University of Aberdeen, UK ), os editores, Tim Ingold e Jo Lee Vergunst, contrastam os modos de aprendizagem das crianças ocidentais nas escolas e das crianças aborígenes. O livro se propõe a a uma abordagem antropológica transdicisplinar (entre disciplinas e temáticas) sobre os modos de caminhar, a percepção do ambiente, o pensamento, o corpo, a criatividade etc. Os autores nos convidam, por exemplo, a notar que um adulto sempre tem o olhar para longe do aqui-agora quando conduz uma criança pela mão, enquanto esta mantém o olhar mais baixo, mais flutuante, aberto às ocorrências do entorno.

Selecionei dois trechos da Introdução (numa tradução livre), quando os autores comparam práticas de condução das crianças por adultos, nas culturais ocidentais  e aborígenes. Eles citam um dos artigos presentes no livro, em que a autora, Elizabeth Curtis, discute uma prática escolar  em que as crianças vão, guiadas pelos educadores, estudar o patrimônio histórico da cidade.  O modus operandi, que conhecemos tão bem por ser tão usual, é o de uma separação entre o pensamento e o caminhar. O primeiro se faz sedentário e o segundo se vê controlado e, por isso, linear. Continue lendo O movimento e o caminhar como conhecimento

O menino constrói e desconstrói

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Imagem: http://www.starwars.com/news

O menino, por volta de uns cinco anos, estava inquieto na sala de espera do consultório. A mãe demorava demais. Entabulei com ele uma conversa em torno da espada que  empunhava, meio desanimado.

Ele me disse que aquela era a espada do mal, do seriado Guerra nas Estrelas.

Entrei, então, nesse mundo. No poder que aquela espada poderia ter. O menino se entusiasmou e passou a falar do que a espada poderia fazer. Fazia gestos com a arma. Narrava a saga. Eu seguia alimentando esse jogo ficcional. Não havia mais tédio. Continue lendo O menino constrói e desconstrói

Meu corpo de menino – por Kuniichi Uno

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Imagem: Steve – http://aqueous-sun-textures.deviantart.com/

 

“O mundo, o universo se lança em meu corpo de menino, e ele não tem nem histórias, nem personagens. A criança não faz nada além de descrever ou inscrever a velocidade e a flutuação de tudo que se passa em seu corpo sem forma. Os dramas, os acontecimentos e as sensações que perturbam os adultos não são mais, pra esta criança, do que o movimento perpétuo dos átomos constituindo a vida”.

Huniich Uno, in A gênese de um corpo desconhecido. Tradução de Christine Greiner, com a colaboração de Ernesto Filho e Fernanda Raquel. São Paulo: n-1 Edições, 2012.

 

Na aula de jogos corporais, o menino que não podia andar

Imagem: Discovery Brasil: http://discoverybrasil.uol.com.br/
Imagem: Discovery Brasil: http://discoverybrasil.uol.com.br/

 

Na Escola Balão Vermelho, nos anos de 1980, iniciava uma nova turma com crianças entre 05 e 06 anos de idade. As aulas eram de jogos simbólicos e corporais. Foi então que surgiu, na porta do salão, um menino lindo e sorridente, com muletas e uma babá que o acompanhava na adaptação aos ambientes e atividades. E ela me contou que ele tinha paralisia em ambas as pernas. Enfim, ele não andava. Fiquei atônito: o que fazer?

Lá dentro da sala os outros meninos e meninas corriam, se jogavam uns nos outros, encontravam seus interesses, nessa busca de entrar contato com o espaço, de produzir espaço. E agora, o que eu vou fazer?

O menino tirou as muletas e sentou-se no chão. Pedi que todas as outras crianças se deitassem. Comecei a atividade assim, naquele plano baixo. E fomos brincando a aula toda. Transitava com eles do simbolismo aos jogos: éramos tubarões, isso e mais aquilo. Havia até jogo de pegar e de fugir: tudo ali, sem que ninguém levantasse e corresse. E o menino brincava à vontade.

Ninguém percebeu, ou pelo menos não comentou, que a aula foi feita para o menino que não podia andar. E quando terminamos ele me abraçou com força. Éramos cúmplices dali para a frente.

E foi um semestre inteirinho assim: brincando com todas as crianças no chão. Sem explicações, sem conversas outras. Ninguém se queixando. E as “aventuras perigosas”, como as crianças do Balão Vermelho chamavam minhas aulas, continuavam. Éramos tubarões e outros peixes. Todo dia o menino me abraçava no final de cada aula.

Foi assim.

Relato de um jogo dramático

Imagem: @Doug88888

Aqui, a descrição de um jogo dramático com crianças do 1 ano do Ensino Fundamental. A ação ocorreu provavelmente entre o final dos anos de 1970  início dos anos  80, na Escola Balão Vermelho. Resolvi manter a descrição na íntegra, como eu havia redigido na época. Junto, o relato da professora da turma, que é muito bacana. Mais do que nostalgia, vejo naquele momento princípios muito interessantes. Chamo a ateção também para as leituras que fizemos do jogo, na época. Eu mais interessado na dinâmica, no processo e no ritual. A professora, em compreender e situar o conflito temático estabelecido pelas crianças. Foi uma bela parceria: crianças, professora da turma e professor de arte.

Fico feliz de rever esse velho material. Hoje, ainda, ele é mais do nunca muito novo. Pois estabelece não um “teatrinho”, mas a experiência ritualizada, negociada e ao mesmo tempo vivida. As crianças estão jogando, atuando, resolvendo, percebendo e imaginando. Não estão se comportando num palco para um platéia. E não estão ensaiando e tampouco decorando falas.   Continue lendo Relato de um jogo dramático

Teatro antes do teatro: o brincar e a cultura das ruas

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Tive o privilégio de viver o teatro antes de conhecer o teatro. Como foi isso? Início dos anos 50, no nordeste de Minas, Teófilo Otoni. A televisão ainda não havia chegado lá. Mas já tinha ido ao cinema.

Então, isso já não era uma influência cultural? Sim, de qualquer jeito.  Mas tal matéria fílmica era muito diferente dos comportamentos representados diante do outro. Era uma janela tremulante e mágica. Vinicius de Moraes falava que a imagem projetada é como aquela pequena chama no meio da escuridão: um fascínio ancestral.

E o teatro? Eu nunca havia visto. Então, eu brincava de quê? E como se pode dizer que toda criança pequena faz teatro sem conhecer teatro? Meu avô fez para mim uma espada de madeira pequena. Vivi o tempo da feitura, do imaginário forjado ali na minha frente. Uma duração. E tive brinquedos comprados também. Revólveres que me encantavam, um ao lado do outro. Sim, os cowboys, eu os vivia intensamente. E uma espingarda de pressão com uma rolha e um barbante na ponta. Mas nada disso era  mais forte que outra coisa: o ato de brincar como poiesis. Pois o brincar antecede o brinquedo: é maior do que ele.  Continue lendo Teatro antes do teatro: o brincar e a cultura das ruas

Mãe da rua: um tempo que se foi

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Gostei muito do livro de Ettore Bottini, Mãe da rua (São Paulo: Cosac Naify, 2007). Bom para ler junto com os filhos. Acho que funciona mais com meninos. As brincadeiras e o mundo de vida ali apresentados concernem a esse universo. Como diz o autor: “este é um livro para ex-meninos. Se as meninas quiserem, que escrevam o seu”. Acredito, porém, que ex-meninas interessadas na cultura lúdica das ruas vão se esbaldar e, talvez, um dia vão querer escrever o seu.

“Vai brincar na rua, moleque! – disse a mãe. E nós fomos. É claro que a frase foi pronunciada numa São Paulo já distante no tempo, quando a profissão das mães era declarada no recenseamento como ‘prendas domésticas’, quando as ruas comportavam com folga o número de automóveis e quando ainda não existia a neurose atual da violência urbana.”

Assim começa o livro de Ettore Bottini. É farto de imagens, descrições de brinquedos e brincadeiras praticadas por meninos naqueles tempos idos. Ele descreve, além disso, os territórios, as negociações entre os bandos e as pequenas armas. Uma delícia rever tudo isso.

E uma curiosidade: fiquei sabendo de um jogo, o Taco, que tem algumas semelhanças com um jogo muito comum nos anos 60 e 70, que era o Bente altas, licença para dois. Parece que o primeiro era encontrado em São Paulo e o último em Minas Gerais. Ao que tudo indica, ambos os jogos têm influência do Beisebol.

Por fim, são essas saudades de um mundo onde o conhecimento e a sociabilidade passavam antes pelo sensível e que, por isso mesmo, tanto se assemelhava à arte. Recomendo, muito.

Mais referências

Bente altas. Mapa do brincar.

Quando brincar é lembrança que dói

Quadrinhos de Luís Felipe Garrocho: Bufas Danadas
Quadrinhos de Luís Felipe Garrocho: Bufas Danadas

Essas tirinhas me tocam duas vezes. Uma, pela história e pela arte. É feita diretamente no computador. Tem essa linha espontânea – quer dizer, não muito controlada – pela tecnologia, posso dizer, rudimentar mesmo. Coisas de quem curtiu o momento de desenhar no Paint – um programa de poucos recursos. E o resultado é essa coisa linda, que explora as próprias limitações do meio. Que se tornam suas possibilidades, seu plano de invenção. E o modo como cria suas histórias: um jeito de produzir anticlímax – como o Felipe me disse um dia. Aqui, o anticlímax é um retorno do primeiro quadrinho, mas que volta diferente. A outra coisa que me toca, eu deixo sugerida, nas linhas que se seguem.

Depois de tudo, esse é também um anticlímax no sentido de quebrar as imagens tão previamente construídas sobre o brincar. Uma idealização, muitas vezes. Aqui, o brincar também tem sua dor. Aliás, não poderia deixar de ser isso. O brincar, intercalado entre dois quadros: o de ficar ali, no sofá, diante da TV e o divórcio dos pais. Interessante como as imagens sequenciais abrem sentidos que não se fecham. E eu tenho cá minhas leituras: pela criança que fui, e por me sentir parte dessa história de Felipe. Se eu vi um menino brincar e construí algo disso, agora tudo se desfaz e refaz sob outros signos, outras luzes.   Continue lendo Quando brincar é lembrança que dói