Brincar de esconder: um modo de percepção

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Imagem: Ana Cotta

Outro dia, voltei a brincar de esconde-esconde. Eram três meninas e um menino. Como eles não se conheciam, encontravam dificuldades para estabelecer contato. Então, sugeri que brincássemos de esconde-esconde. E fui convidado a brincar também. Há muito não me envolvo com as sensações desse jogo. Desde quando? Nem me lembro… A brincadeira em tela é toda uma coisa de tempo,  duração e  linhas de percepção. Aqui, mais do nunca, estamos vivendo o ser ou não ser percebido.

Você fica num estado de quietude maravilhoso. Agora consigo sentir o que uma criança sente e percebe quando brinca de esconde-esconde. Por mais que você fique direcionado à ação, ao ato de procurar a oportunidade para se salvar no pique e, portanto, correr riscos, há uma suspensão de tudo por alguns instantes. Eu via o céu, as árvores, o lugar onde estava, percebia o estado do meu corpo agachado. E vinham sensações incríveis.

Fui transportado num segundo para as cenas de Madadayo, o filme de Akira Kurosawa. Um professor que vivia cercado, anos após anos, pelos seus alunos e alunas. E eles sempre lhes perguntavam se ele estava pronto para partir, para morrer. E ele sempre dizia “ainda não” (madadayo). Uma das cenas finais é sua morte e a reminiscência de uma cena de infância, na qual brinca de esconde-esconde e um dos garotos pergunta se já está pronto e ele diz: “ainda não”.

Tudo isso é um artesanato existencial. Então, posso entender porque os adultos, inclusive muitos educadores, costumam ter uma visão enfadonha ou utilitária do brincar. Vivem no espaço-tempo da ausência: uma interioridade absoluta (um monólogo interior infindável) que os aprisiona e os impede de viver na intimidade do fora (Blanchot). Uma exterioridade sem experiência e uma experiência sem contato com o corpo e o entorno.

Num minuto, uma das meninas me viu: minhas costas haviam me denunciado. Como dizem Deleuze e Guattari: “Haverá sempre uma percepção mais fina do que a sua, uma percepção do seu imperceptível…” Voltei a estudar outras vias de não ser percebido. E passamos assim uns bons momentos.

Confunde-se muitas vezes o brincar com a excitação de uma “ação para”, visando fins. As tais gincanas, por exemplo. Mas o brincar, como a delicadeza do esconde-esconde demonstra, é uma abertura para o aqui e agora de uma duração. Ou então colocam o brincar como mero recurso de aprendizagem. Ora, ele é a aprendizagem! O esconde-esconde, aparentemente tão simples, esconde e abre um mundo de percepções e sensações. A criança aprende, momento a momento, estratégias de não passar despercebido, entre outras coisas.

5 Comments

  1. Cristina disse:

    Lembro-me até hoje de quando brincava de esconde-esconde… Era um troço!!! A respiração ofegante e eu tendo que contê-la para não ser descoberta… os olhos com medo, super atentos, a capacidade de enxergar aumentava, os olhos ficavam mais velozes, espertos. Os barulhos mais altos, assustadores… os esconderijos eram(são) mesmo outros mundos!…]

    Aí você fala do brincar(no último §) sendo desfigurado e obrigado a ter um sentido utilitário empobrecido, coisas que a escola faz…
    E mais uma vez a pergunta que não quer calar soa na minha cabeça e no coração: é possível mesmo, dentro das instituições, viver plenamente todas essas sutilezas(ainda que não as vivamos o tempo todo)?Que luta, Luiz, vou te contar! Apesar dos esforços, a teimosia da burrice muitas vezes é mais do que aceita: em alguns espaços e tempos, é também respeitada.

    Parabéns pelos textos!! Sinto-me privilegiada por lê-los. Percorrer seus escritos é puro deleite!

  2. Luiz Carlos Garrocho disse:

    Cristina,

    Bonitas essas coisas que você diz. São sensações maravilhosas.
    Acompanho pelo seu blog sua paixão pela criança, pela arte e pelo brincar.

    Trabalhar em instituições não é nada fácil. Mas é também uma luta muito boa quando se tem a força, a coragem e as ferramentas adequadas!

    Cada espaço inventa suas forças de subjetivação. Podemos ficar tristes. Podemos nos deixar levar pelas burocracias. Ou, ainda pior, fazer afrontamentos suicidas!

    O brincar deve nos ensinar as artemanhas do viver!

    E que bom ter pessoas como você, curtindo tanto as brechas iluminadas do brincar nas escolas públicas. Aquelas imagens das crianças brincando com sombras é puro deleite.

    A sensibilidade é um estudo muito sério. Deveriam nos dar melhores condições. Mas, como nada é ideal, vamos trabalhando dentro do possível e fazendo dele nossa plataforma de criação.

    Abraços

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  3. Cristina disse:

    De coração, obrigada pelos ensinamentos. Muitas de suas palavras têm me acompanhado em todos os lugares. A hora do parquinho na escola, por exemplo, nunca mais foi a mesma. Ainda que não veja as outras dimensões do brincar o tempo todo, hoje sei que elas estão presentes e são poderosas. E quando “sujo a roupa”, como vc disse em um de seus textos, experimento sensações indescritíveis. Após as vivências, costumo sair anestesiada e calada. Ao mesmo tempo que é torpor, é também atitude de reverência e de imenso respeito.

    Abraços!!!

  4. Priscila disse:

    Acabei de descobrir seu blog. Explorá-lo promete ser minha brincadeira durante um bom tempo.
    O que me encanta é o fato das crianças te enxergarem como alguém que pode brincar também. Elas não fazem isso com qualquer adulto. Escolhem a dedo. Como se em algum momento tivessem o poder de te encolher, de fazer você voltar a ser criança. E, geralmente, não dá muito certo você se auto convidar. Há um período de conquista, de flerte. Troca de olhares, gestos e poucas ou nenhuma palavra.
    Fazem isso também com crianças novas no pedaço, mas pra gente há o passo de nos deixarmos levar pela brincadeira. O esforço de aceitarmos o encolhimento e de deixarmos de lado a massa da adultice.
    … agora vou procurar os melhores esconderijos do seu blog…

  5. Luiz Carlos Garrocho disse:

    Priscila,

    Acredito que tem muitos esconderijos sim. Pequenas frestas no mundo cotidiano, jeitos de corpo, olhares, modos de ser… Este mundo pode ser terrível mas é também maravilhoso.
    E o brincar nos dá a medida-desmedida de todas as coisas, não?

    Muito interessante essa observação sua sobre como podemos nos fazer convidar em vez de nos intrometermos…

    Abraços

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