Encontro em Cuiabá: a produção teatral para crianças

Estive em Cuiabá no dia 06.10 para discutir a Produção Teatral para Crianças, na Mostra Internacional de Teatro Infantil.

A minha apresentação teve por base as relações entre a produção cultural e a cultura da criança. Entendo que a produção cultural não pode deixar de ser contextualizada: o significado da infância em nossa sociedade. Para tanto, tomei como linha mestra o que Clarice Cohn chama de “a criança como sujeito cultural ativo e produtor de sentido sobre o mundo” (Antropologia da Criança, ed. Jorge Zahar).

Contexto: a criança como produtora de cultura

Esta abordagem traz, assim, uma “novidade” que, entretanto, encontra barreiras: a) por parte de um sistema de ensino que não consegue aceitar a criança fabuladora, isto é, a criança como produtora de cultura; b) por parte da indústria cultural que somente trata a criança como mera consumidora (e muito da produção teatral destinada a esse público vai nessa direção); c) pelo sistema da reprodução social, que insiste em ver a criança como o ser que “ainda não é”, que deve ser objeto de investimentos para “ser” no futuro. 

O espetáculo para crianças e a fabricação da infância

Remonta-se, aqui, às teses de Philippe Arries sobre a história social da infância. Em outras palavras, sobre a fabricação da infância, de como esta categoria foi produzida socialmente.

Tomei por foco, nessa segunda parte, a relação entre o mundo de cultura das crianças e o mundo de cultura compartilhado. Vejamos isso: o mundo de cultura das crianças é tomado como toda a produção de sentido que as crianças produzem nos seus contextos de vida. Acultura das ruas, como explicitado por Edmir Perrotti, é justamente um desses contextos. Não que tais espaços sejam vistos sem quaisquer relações com o mundo adulto, com as relações sociais. Antes disso, são espaços em que as crianças podem realizar trocas e interações entre si.

A cultura das ruas é expressão, assim, do mundo de cultura produzido pelas crianças. No entanto, com os processos de modernização e ampliação do capitalismo por todos os âmbitos da vida, esse mundo de cultura, como explicita Perrotti, sofre, cada vez mais, de um encolhimento sensível. Em contrapartida, a criança deixa de ser produtora de cultura para ser meramente consumidora.

Como se pode ver, a questão da produção cultural para crianças não pode ser dissociada deste contexto: o lugar da infância na nossa sociedade. No caso, como as crianças produzem sentido e como isso é mais ou menos valorizado socialmente.

Já o mundo compartilhado é aquele em que adultos e crianças ainda não foram segmentados: o circo, as festas religiosas populares, os ritos e os mitos que são transmitidos pelas gerações (a contação de histórias, por exemplo).

Nesse momento, uma pausa para rever nosso conceito de cultura, sem o quê tudo o que dissemos se esfuma pelo ar. Cultura não como algo que a criança irá paulatinamente aprender, como se fosse uma tabula rasa. E nem como um valor social conferido a poucos objetos e pessoas. Vemos a cultura como todos os modos de fazer, sentir, pensar, criar e viver.

Ocorre, assim, uma série de trocas entre o mundo de cultura da criança e o mundo de cultura compartilhado (festividades, ritos, mitos transmitidos, circo etc.). Entretanto, tais espaços de compartilhamento foram se modificando, visto que no processo de modernização capitalista, a criança foi sendo investida, cada vez mais, como mera consumidora. São outros “ritos” que se impõem, mas que impõem ao sujeito o próprio sentido.

Paralelamente, a criança passa a viver nos espaços de confinamento, como esclarece Perrotti: toda a sua produção de sentido está se dando em creches, escolas, cursos especializados etc. Não que isso seja algo ruim, mas apenas que é diferente e produz, afinal, outros agenciamentos desejantes. Além disso, as políticas de proteção da infância passam a reivindicar justamente os cuidados especializados etc. O mundo de cultura da infância caracterizado pela cultura das ruas encolhe cada vez mais. E, com isso, surgem produtos destinados especialmente às crianças. Um grande mercado produtor de cultura.

Nesse ponto, podemos traçar rapidamente uma breve lista dos espetáculos produzidos para as crianças: a) aqueles que se relacionam com a criança de modo instrumentalizado, que não consideram a consideram como produtora de cultura (grande parte da produção audiovisual, dos shows televisos etc. vão nessa direção e muito do teatro também); b) aqueles que seguem a trilha acima, mas degradam cada vez mais a condição do teatro infantil, realizando cópias dos roteiros do cinema de sucesso etc., não considerando a produção nem do ponto de vista qualitativo (investimento em conteúdo original relevante) e nem do ponto de vista quantitativo (investimento dos valores agregados do mercado de arte profissional); c) os que pensam criativamente o mercado para crianças, buscando entretenimento de qualidade, valorizando a inteligência das crianças; d) aqueles que pensam e criam obras artísticas sem a focalização acima (“C”), mas que, como dizem Lygia Bojunga Nunes, produzem criações que não “desagradam as crianças”; e) e, por fim, as criações que, na trilha “d”, têm por tema a infância e sua cultura lúdica, trazendo traços de memórias dos criadores, valorizando a cultura lúdica da infância.

Note-se que as linhas “c”, “d” e “e” operam, ainda, por misturas. Essa breve taxonomia visa apenas delinear – colocar em linhas – modos de produzir e criar espetáculos de artes cênicas para crianças.

A conexão mundo de cultura da infância –

Podemos, agora, falar um pouco dessas criações que entram no mercado como espetáculos para crianças, mas que não se curvam à lógica instrumental do mesmo. Para tanto, tomo como exemplo e inspiração maior, o filme Palhaços, de Federico Fellini. Trata-se de uma belíssima mistura de documentário e ficção no qual o mundo dos palhaços é apresentado com todo o seu delírio, traçando relações, ainda, com a infância do próprio Fellini. Vemos o menino deslumbrado com o mundo do circo e dos palhaços, mostrando como estes eram vistos também sob o aspecto de personagens marginais que habitaram também a infância do cineasta. E aqui chamo a atenção para os fenômenos de borda e vizinhança, que barrados pelo mundo adulto da produtividade, trazem imagens e afecções de sensibilidades outras. A cultura da infância, quando ainda nos espaços não confinados da cultura das ruas, interagia com esse mundo marginal, fabuloso, muitas vezes inventado na própria imaginação (histórias estranhas que povoam o universo infantil).

Por fim, abordei duas criações: De banda pra lua, do grupo mineiro Armatrux, com direção de Eid Ribeiro e Roda pé, da Cia Balangandança de São Paulo. Exemplos de produção cênica para crianças que respeitam sua inteligência e prolongam, por outros meios (do espetáculo e do mercado cultural),  a cultura lúdica da infância e seu modo de produzir sentido.

Depois disso, discutimos com os artistas e educadores, numa mesa redonda, o teatro e a escola.

 

 

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