O brincar é um platô

O brincar como um platô. Antes de explicitar qualquer referência sobre a definição do conceito fabricado por Deleuze e Guattari, quero dizer como fui afetado (e modificado) mais uma vez pela invasão doce e bárbara da cultura lúdica da infância. E assim falo do platô.

Os dois meninos brincavam. De longe eu ouvia as vozes de excitação e, posso dizer com Oswald de Andrade, da alegria que é a “prova dos nove”. Estava navegando na internet, mas imerso na luminosidade sonora de uma tarde tomada por vozes de crianças.

A tarde de domingo sumia vagarosamente com sua luz. E o que chegava aos meus ouvidos eram todos os sons vindos de uma fabulação criadora. Não sabia o que estava acontecendo, mas havia uma eletricidade produzindo um meio expressivo. E então você podia sentir isso no ar.

Ocorre que eu necessitava assistir a um espetáculo e, como compromissso, tinha que levar um dos meninos embora. Estava contando desde o meio da semana o momento de ir àquele teatro. Afinal, faz parte do meu ofício. E era o meu programa!

Tive que cortar a brincadeira. A expressão dos corpos foi fatal: caiu uma geleira em cima deles. Agora, lembro-me das minhas tardes de domingo, quando menino, brincando na rua. Ouço a voz de minha mãe me chamando para tomar banho e ir à missa. E era sempre assim: uma tristeza imensa me fazia sucumbir diante do entardecer, naquela terra vermelha do minério. E se infiltrava em mim a dor de uma saudade infinita!

Os meninos, porém, continuaram fluindo com trocas verbais, enquanto subiam as escadas. Entraram na sala ainda arrastando o seu meio: uma vibração contínua, uma corrente de alta intensidade. Como precisava de sair logo, preparo um lanche rápido para eles. E coloco um copo de suco de uva para cada um enquanto preparo outra coisa. E de repente um dos copos pula na mão de um dos garotos, derramando suco pra cima dele e pra tudo quanto é lado. Como isso foi possível? Tive a pequena sabedoria de não culpar, mas não podia deixar de dizer que estava atrasado e que corria o risco de perder o espetáculo…

Sai, depois de limpar e secar rapidamente o garoto e ainda lavar o chão às pressas. Corri muito para pegar o espetáculo. Mas um vácuo crescia no fundo do meu estômago: foi necessário o copo de suco derramado para que os meninos mudassem de meio expressivo. Só assim poderiam deixar o platô em que se encontravam… Foi pelo susto que saíram daquele platô. Enquanto eles viviam um jogo de mútuas afecções, comigo só havia impaciência em relação ao que me aguardava, o futuro.

A minha lição: preciso aprender a morrer a cada minuto! A abandonar planos, a mudar de direção, a respeitar a duração de um platô. Qual a importância da minha programação? Não vá pensar em modelos e regras. E nem em espontaneísmo, ou algo do tipo “o menino é tudo e o adulto é nada”. Tudo isso é bobagem. O lance não estava no fato de ceder, de abandonar o meu desejo e ficar à mercê do outro. Como muitos adultos que não têm vida própria. Nada disso: o lance estava no exercío da flexibilidade, de um lado, e da escuta sensível da existência de um platô do outro.

Meninos precisam de ritos para sair de um espaço e tempo de criação e fabulação. Para mudar de meio. E nós podemos aprender com isso: como num trajeto há tanta intensidade reunida e distribuída…

Definição de platô: uma zona de intensidade contínua. Segundo Deleuze e Guattari:

“Gregory Bateson serve-se da palavra “platô” para designar algo muito especial: uma região contínua de intensidades, vibrando sobre ela mesma, e que se desenvolve evitando toda orientação sobre um ponto culminante ou em direção a uma finalidade exterior. Bateson cita como exemplo a cultura balinense, onde jogos sexuais mãe-filho, ou bem que-relas entre homens, passam por essa estranha estabilização intensiva. “Um tipo de platô contínuo de intensidade substitui o orgasmo”, a guerra ou um ponto culminante. É um traço deplorável do espírito ocidental referir as expressões e as ações a fins exteriores ou transcendentes em lugar de considerá-los num plano de imanência segundo seu valor em si.” (Mil Platôs, vol. 1. Tradução de Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa, 1995, RJ)

cultura do brincar, linhas de errância, arte-educação

5 thoughts on “O brincar é um platô”

  1. Garrocho, Você nem deve se lembrar de mim, sou a Cibele, uma amiga do Ricardo Junior. Achei ontem o seu blog e de um tapa só tenho lido todos os posts. Impressionante a quantidade de esquinas…filosofia, brincar, teatro…Grande contribuição para a blogosfera. Você tem dado aulas?

  2. Cibele,

    Bom demais ter você passando por aqui… Claro que me lembro. Quase montamos um trabalho juntos. Lembra do Tom Sawer? Atualmente ando à frene da gestão dos teatros municipais de bh. Estou sentindo muita falta das aulas… Ah… preciso dar um jeito nisso!

    Meu e-mail: luizcarlosgarrocho@hotmail.com

    Abraços

  3. Nós quase montamos Tom Sawer juntos? Não me lembro…Ai, ai, ai o tempo passa rápido! Eu estou morando em Divinópolis, aguardando a oportunidade de voltar a morar em Bh. Bom, se os teatros estão em suas mãos, estão em boas mãos. Ano que vem pretendo ir a BH fazer alguma matéria de mestrado, mirando esse objetivo. Fico numa dessas esquinas também: filosofia, brincar, teatro e literatura infantis. Enquanto isso, vou lendo seu blog e terminando de montar o meu em sociedade com a Claudia (Sousa, ex-Clic, sabe?). Quando for a grande inauguração, te aviso.

    Outro abraço ,

    Cibbele

  4. Cibele,

    Talvez nem todos os/as leitores/leitoras conheçam Tom Sawer. Cito rapidamente: é um livro genial do grande Mark Twain. Ali temos a imfância pulsando viva…

    Bom, pelo menos o Ricardo e pediu o livro emprestado e disse que você toparia montar um espetáculo para crianças inspirado na obra… Depois me devolveu e não falamos mais no assunto.

    Quero ler o seu blog com a Cláudia. Também para quem não sabe ela criou o Clic – Centro Lúdico de Interação e Cultura. Uma escola genial para crianças até 06 anos cujo eixo é o brincar!

    Ficamos aguardando a entrada de mais esse espaço do brincar!

    Abraços

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