O que acontece quando se brinca?

 

Para além dos dualismos

Temos a infância e o brincar. Não quer isso dizer que as duas instâncias sejam uma só coisa. Pois a experiência do brincar ocorre também, em maior ou menor grau, nas sociedades adultas.  Retenhamos, no entanto, a imagem que nos parece, por vezes, insondável: a de uma criança brincando. O que acontece? O que se passa?

Acredito que essa é uma pergunta fundamental. As pessoas envolvidas na educação infantil veriam modificar seu próprio chão e, consequentemente o horizonte de sentido no qual atuam, caso se colocassem a pergunta: o que está acontecendo ali, no ato de brincar? Estamos nos referindo às ações não dirigidas, em que as crianças agem movidas pelo interesse intrínseco à própria atividade.

Voltemos no tempo, a uma época em que predominavam os brinquedos feitos pelas próprias crianças. Não veja nisso nenhum saudosismo ou desvalorização das situações urbanas, da entrada das tecnologias etc. Foram os refugos das máquinas, ou os maquinismos inventados, que constituíram muitos brinquedos. Separemos, no entanto, os brinquedos fabricados por adultos e destinados às crianças ou não (os soldadinhos de chumbo) dos brinquedos que as próprias crianças criam a partir de interações entre si e com o entorno.

Então, voltemos ao brinquedo fabricado pelas próprias crianças. E para dar um exemplo, lá está um menino, nos anos cinquenta, puxando por um fio de barbante uma lata de doce vazia e retangular, agora carregada de terra. O que está acontecendo?  

Alguém poderia dizer prontamente: a criança imagina que dirige um caminhão. Haveria desse modo, um conteúdo interno ao qual poderíamos ou não ter acesso. De fato o brincar, como qualquer outra modalidade de expressão humana, teria seus conteúdos. Mas, se formos por esse caminho, começaríamos com uma operação dualística: de um lado, o conteúdo, do outro a forma de expressão.

Nessa divisão entre forma e conteúdo, subjacente às teorias da linguagem e da comunicação como conformidade ou correspondência, é que reside a principal ilusão que não nos permite entrar em contato com o que acontece no brincar como uma expressão de vida – uma expressão viva. Haveria um mundo interno e um mundo externo. E o interno, definido pela representação, seria tanto mais ou menos adequado ao mundo externo. No brincar, essa inadequação seria evidente.

Então, acreditamos que o brincar possui um significado produzido numa interioridade tomada como uma cena privada, que ocorreria numa espécie de “teatro interior”. Então, caberia à educação tornar essa operação mais “científica”. Ou seja: fazer que a representação torne-se mais adequada ao suposto objeto.

E se o brincar nada serve para esse esquema, ele tomará parte nos gastos de uma “economia infantil”. Porém, ao custo de ser abandonado, no decurso do tempo, para que a adequação entre representação e mundo possa se efetivar. Ou se tornar mais “produtivo”, servindo para tornar atividades “sérias” mais “interessantes”. O brincar perde, por essas vias, toda sua potência.

Contra a representação: a potência criadora do brincar

O ato de brincar não se reduz a esse esquema. O lúdico é pura afirmatividade. Por si mesmo, uma operação concreta e real no mundo. O brincar é o mapa de nossa experiência de mundo. E aqui mapa é tomado no sentido que lhe dá Gilles Deleuze: não como um retrato do território, mas como o próprio território da experiência.

Pois o brincar é um pensamento em ato. Não no sentido menor que lhe costuma ser dado, como algo dependente da concretude. Mas naquele em que se busca o conhecimento através da ação. Portanto, o brincar é uma produção, um encontro e um acontecimento.

O que aprendi foi não mais procurar o significado que estaria atrás do brincar, mas sim deixar que a poética desse ato se manifeste através do meu silêncio. E para isso é preciso deixar que a ação possa produzir um acontecimento, provocando mudanças em mim. A criança que fui, o adulto que sou, junto à possibilidade de reinventar esse processo de subjetivação.

Outro dia, o meu filho mais novo, já com seus 1o anos seguia na calçada ao meu lado. Ele leva na mochila um Playstation e uma série de jogos eletrônicos.  Quando não, tem uma bola no pé  ou desliza num skate. O que acontece quando o menino ou a menina estão brincando?

Torna-se necessário, assim, dispor de um mapa do brincar. Um mapa no qual estou já inserido com minhas lembranças, percepções e mudanças produzidas pelo acontecimento.

 


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