A festa junina, o tempo e a duração

Meu pai na cama, com seus 93 anos e  pouca mobilidade, tentou cantar baixinho: “É noite de São João…” A voz nem saiu direito. E mais não fez, não conseguindo continuar. Ajudei: “Chegou a hora da fogueira…” E cantei umas vezes para ele.

– Você se lembrou!

Meu filho mais novo, com seus quase 10 anos de idade, ficou parado, vendo a cena. Alguma coisa se passou.

Isso veio do nada. Ou de algum lugar. Depois, ele me mostrou que a televisão havia mencionado qualquer coisa sobre a música ou a festa junina.  Mas não foi daí que veio esse afeto. Inútil explicar.       Continue lendo A festa junina, o tempo e a duração

Arte contemporânea e educação: uma palestra de Celso Favaretto

Por Keith Arnatt - Arte Conceitual

O filósofo Celso Favaretto abriu o ano letivo na Escola de Artes Guignard, em Belo Horizonte (10.03.2010), com  a questão sobre a função da arte na educação. Para Favaretto, o que está implícito nessa pergunta é o caráter formativo da arte. E para ele, nada nesse campo está claro. Haveria uma espécie de “mitologia da arte”, que toma a arte como algo essencial para a formação humana, sendo que a escola seria o lugar marcado para esse encontro.  Celso abriu sua palestra perguntando se realmente “a arte seria indispensável à formação do educando”. E desdobrou a questão em mais duas: o que seria entendido como arte e o que poderia ser compreendido como formação. A exposição sacudiu concepções já conformadas, que se tornaram opinião dominante e senso comum.  Continue lendo Arte contemporânea e educação: uma palestra de Celso Favaretto

O fim da infância (1)

Venho sempre defendendo a idéia de que a educação infantil deve se pautar pela cultura do brincar. Porém, como se não bastassem as dificuldades conceituais e práticas encontradas em muitas escolas, com uma carga cada vez maior de conteúdos formais, significando o encolhimento da infância, de seus espaços e tempos, deparamo-nos, agora, com o fato de as crianças de seis anos serem incluídas, sem qualquer preparo de profissionais e das escolas, no ensino fundamental. Pelo menos, é o que a realidade tem mostrado. Continue lendo O fim da infância (1)

O brincar, o sensível e a arte

Imagem: Tomás Rotger

Estou às voltas mais uma vez com a questão: como se dão as passagens entre um plano de sensibilidade, próprio da cultura lúdica da infância, e o plano de arte?

Esses três planos não existem em relação de continuidade e nem se apresentam como coisas idênticas. Porém, todo um movimento da arte contemporânea tem nos levado a repensar as relações entre a arte e a vida. A separação entre arte e vida foi, durante muito tempo, algo dado. Do lado da vida a instabilidade, o efêmero, o que se desgasta e se perde. Do lado da arte, o que se conserva (pelo menos no espírito), o que transcende nossa existência precária. São essas fronteiras que passam a ser questionadas, tornando-se menos rígidas. Continue lendo O brincar, o sensível e a arte

Arte-Educação e Ernest Fenollosa: do caderno de anotações (1)

ideograma

No livro Ideograma: lógica, poesia e linguagem, Haroldo de Campos (organizador e  um dos autores) aborda entre outras questões, o pensamento e a trajetórica intelectual  de Ernest Fenollosa, traçando, inclusive, uma breve abordagem dos elementos que ele apresentou como educação para arte. Fenollosa foi um pesquisador voltado para a poesia (Pound), os ideogramas e arte oriental.

Sublinho as duas linhas principais dessa visada: a ênfase na atividade criadora e não-imitativa e no estudo da composição. Tudo guiado por uma perspectiva relacional.  Fenollosa foi inovador para sua época, quando desmontou preconceitos contra a compreensão das artes e do pensamento chinês e japonês. Alguns o consideram precursor da moderna antropologia. Continue lendo Arte-Educação e Ernest Fenollosa: do caderno de anotações (1)

O aprendizado: Proust visto por Deleuze

amanda please
Imagem: Amanda Please

Perguntamo-nos o que é aprender e como se pode aprender. Mas por que queremos ou devemos aprender? Os animais aprendem desde cedo a sobreviver. Nós humanos somente  podemos contar, de início, com nossa fragilidade,  nossa inadaptação, nossa dependência da cultura dos cuidados, que é também  matéria e veículo de expressão e conhecimento. E vamos em busca de algo! Mas para quê?

Ciência, arte, filosofia e amor constituem nossos aprendizados.  E assim adentra-se, seguindo Gilles Deleuze, na obra de Proust, Em busca do tempo perdido. Trata-se, para Deleuze, de uma “busca da verdade”.  Pois, se a obra “se chama busca do tempo perdido é apenas porque a verdade tem uma relação essencial com tempo”.  O prazer decorrente das nossas buscas, diz Deleuze, é um prazer pela verdade. No entanto, não temos a condição natural de buscar a verdade. Deleuze mostra, a partir de Proust, que “nós só procuramos a verdade quando estamos determinados a fazê-lo em função de uma situação concreta, quando sofremos uma espécie de violência que nos leva a essa busca”.  E completa dizendo que não se encontra a verdade naturalmente, sem um esforço de autorecriação, posso dizer. Para Deleuze “ela se trai por signos involuntários”. Continue lendo O aprendizado: Proust visto por Deleuze

Os jogos corporais e simbólicos da criança: entre a ficção e o real

Digitalizar0003

Volta e meia deparamo-nos  com o tema da violência e da agressão nos jogos corporais e simbólicos das crianças.  Nesta hora perguntamo-nos sobre os limites entre realidade e ficção. E mais: em que medida tais ficções, supondo que estejamos nesse campo, acabam por influenciar o comportamento real? Questões que se fazem recorrentes, principalmente nas práticas do Teatro-Educação, quando o real e o imaginário parecem se misturar. Ocorre de encontrarmos esses temas violentos e agressivos nos desenhos das crianças. Veja, por exemplo, as imagens em tela desenhadas por uma criança de 07 anos de idade: armas, ataques e batalhas, sangue escorrendo, terror…  No teatro isso é mais “dramático”, justamente porque os corpos estão ali, em interação.  A partir de Peter Slade (do seu já clássico O jogo dramático infantil), podemos entender que, no primeiro caso, o jogo é projetado (no papel, quando se trata de desenho, ou com objetos e bonecos).  E nos jogos simbólicos e corporais, o jogo é pessoal.  Nestes últimos, estamos envolvidos de corpo e alma.  E então, nos perguntamos mais uma vez: qual a natureza desses jogos corporais e simbólicos, quase sempre carregados de tais cenas agressivas e violentas? Continue lendo Os jogos corporais e simbólicos da criança: entre a ficção e o real

Teatro performativo com crianças

children in wal

Outro dia pude vivenciar uma experiência de teatro performativo com crianças.  O que vem a ser este tipo de criação cênica e corporal? Antes de tudo, trata-se de um plano contaminado pela Arte da Performance. E neste caso deparamo-nos, ainda, com as inúmeras  tentativas de classificação. Porém, mais intenso e expressivo é pensar por devir,   limiares e transformações… Isso não nos impede, evidentemente, de buscar definições. Não por contornos num sistema de encaixe, mas por vizinhanças e variações contínuas. Ou seja, fazendo-se em movimento.  Continue lendo Teatro performativo com crianças

Brincar de esconder: um modo de percepção

ana-cotta-doors-2
Imagem: Ana Cotta

Outro dia, voltei a brincar de esconde-esconde. Eram três meninas e um menino. Como eles não se conheciam, encontravam dificuldades para estabelecer contato. Então, sugeri que brincássemos de esconde-esconde. E fui convidado a brincar também. Há muito não me envolvo com as sensações desse jogo. Desde quando? Nem me lembro… A brincadeira em tela é toda uma coisa de tempo,  duração e  linhas de percepção. Aqui, mais do nunca, estamos vivendo o ser ou não ser percebido. Continue lendo Brincar de esconder: um modo de percepção

Cultura lúdica da infância: além da nostalgia

fily
Imagem por Fily

Como não recair na nostalgia quando falamos de uma cultura lúdica da infância? O movimento retroage. E nos encontramos, assim, no território seguro de uma eterna repetição.

Ir além da nostalgia é a tarefa cotidiana daqueles e daquelas que têm a ludicidade da criança por tema e paixão. Em busca de algo que a lembrança não consegue abarcar mas que é pura memória e jogo vivo de acasos e afetos.

Sempre digo que a infância tem uma altivez inexprimível. E uma dor e alegria que a acompanham. A criança está submetida ao adulto, ao que ele impõe ou antepõe para a configuração do mundo. Mas a criança, mesmo quando sofre a ação adulta, tem um sentido de sobrevivência no futuro. O adulto está cercado e por isso quer da criança sua adesão moral. Ocorre que a criança habita frestas e hesita entre ações úteis. Nisso reside seu poder e sua superioridade.

Continue lendo Cultura lúdica da infância: além da nostalgia

o brincar e suas linhas de errância – artes cênicas e educação