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A criança pequena é egocêntrica? (1)

Imagem: Arquera

Durante muito tempo acreditei na ideia de um egocentrismo infantil. Como fui um leitor de Jean Piaget e o construtivismo havia se tornado uma linha determinante e também hegemônica em educação, tive essa ideia por princípio inabalável. Um dia, quando dava uma conferência sobre teatro e educação, trabalhei com a noção piagetiana de que o símbolo não seria descentrado – daí a noção de egocentrismo infantil. Uma educadora me questionou: mas a criança quando brinca – e ela se referia aos jogos simbólico-corporais infantis – envolve-se sim com ou outro.

Foi um choque muito importante para mim. E que fez descarrilar toda uma linha de pensamento em teatro e educação. Mais tarde, sofri outras transformações, passando a operar com outros planos de criação. Não mais a noção de um progresso, mas sim de uma volta ao que a criança pequena traz.

A teoria piagetiana mostra que a criança pequena não socializa o símbolo, daí a ideia que não é passível de uma comunicação teatral. Algumas práticas de jogos teatrais têm por base, para dar um exemplo, essa linha evolutiva: do simbolismo para o signo, do mais motivado para o mais socializado, mas preservando-se elementos motivados no final da linha. Lógico, pois se trata de arte. No entanto, temos aí toda uma linearidade de extração cognitiva, no caso da psicopedagogia. E toda uma via de submissão à representação, no caso do teatro. Continue lendo A criança pequena é egocêntrica? (1)

O brincar, o sensível e a arte

Imagem: Tomás Rotger

Estou às voltas mais uma vez com a questão: como se dão as passagens entre um plano de sensibilidade, próprio da cultura lúdica da infância, e o plano de arte?

Esses três planos não existem em relação de continuidade e nem se apresentam como coisas idênticas. Porém, todo um movimento da arte contemporânea tem nos levado a repensar as relações entre a arte e a vida. A separação entre arte e vida foi, durante muito tempo, algo dado. Do lado da vida a instabilidade, o efêmero, o que se desgasta e se perde. Do lado da arte, o que se conserva (pelo menos no espírito), o que transcende nossa existência precária. São essas fronteiras que passam a ser questionadas, tornando-se menos rígidas. Continue lendo O brincar, o sensível e a arte

O aprendizado: Proust visto por Deleuze

amanda please
Imagem: Amanda Please

Perguntamo-nos o que é aprender e como se pode aprender. Mas por que queremos ou devemos aprender? Os animais aprendem desde cedo a sobreviver. Nós humanos somente  podemos contar, de início, com nossa fragilidade,  nossa inadaptação, nossa dependência da cultura dos cuidados, que é também  matéria e veículo de expressão e conhecimento. E vamos em busca de algo! Mas para quê?

Ciência, arte, filosofia e amor constituem nossos aprendizados.  E assim adentra-se, seguindo Gilles Deleuze, na obra de Proust, Em busca do tempo perdido. Trata-se, para Deleuze, de uma “busca da verdade”.  Pois, se a obra “se chama busca do tempo perdido é apenas porque a verdade tem uma relação essencial com tempo”.  O prazer decorrente das nossas buscas, diz Deleuze, é um prazer pela verdade. No entanto, não temos a condição natural de buscar a verdade. Deleuze mostra, a partir de Proust, que “nós só procuramos a verdade quando estamos determinados a fazê-lo em função de uma situação concreta, quando sofremos uma espécie de violência que nos leva a essa busca”.  E completa dizendo que não se encontra a verdade naturalmente, sem um esforço de autorecriação, posso dizer. Para Deleuze “ela se trai por signos involuntários”. Continue lendo O aprendizado: Proust visto por Deleuze