Teatro antes do teatro: o brincar e a cultura das ruas

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Tive o privilégio de viver o teatro antes de conhecer o teatro. Como foi isso? Início dos anos 50, no nordeste de Minas, Teófilo Otoni. A televisão ainda não havia chegado lá. Mas já tinha ido ao cinema.

Então, isso já não era uma influência cultural? Sim, de qualquer jeito.  Mas tal matéria fílmica era muito diferente dos comportamentos representados diante do outro. Era uma janela tremulante e mágica. Vinicius de Moraes falava que a imagem projetada é como aquela pequena chama no meio da escuridão: um fascínio ancestral.

E o teatro? Eu nunca havia visto. Então, eu brincava de quê? E como se pode dizer que toda criança pequena faz teatro sem conhecer teatro? Meu avô fez para mim uma espada de madeira pequena. Vivi o tempo da feitura, do imaginário forjado ali na minha frente. Uma duração. E tive brinquedos comprados também. Revólveres que me encantavam, um ao lado do outro. Sim, os cowboys, eu os vivia intensamente. E uma espingarda de pressão com uma rolha e um barbante na ponta. Mas nada disso era  mais forte que outra coisa: o ato de brincar como poiesis. Pois o brincar antecede o brinquedo: é maior do que ele. 

Já é hora, então, de dizer o que era o teatro antes do teatro. Era o brincar. E também o ato de performar e teatralizar. Falo desses dois últimos, mas obviamente teria que encontrar no cotidiano de um menino de 5 anos, de pés descalços no chão quente do interior mineiro, algo da cultura local que ligasse essas palavras ao brincar.

Teatro antes do teatro: meu irmão e minhas irmãs brincando de circo no quintal, com uma roda de gente assistindo. Minhas irmãs desfilavam com sombrinhas e meu irmão toureava ao um cabrito de verdade. Sim, você já matou a charada ou deveria ter matado: nós conhecíamos o circo!

Havia também uma bailarina que me encantava. Ela ficava num palco mínimo, de tecido azul marinho, numa caixinha de música que se parecia  com um teatro e um rádio ao mesmo tempo. Mas eu não sabia que ela era uma bailarina.

O bom disso tudo, ao contrário dos que se preocupam tanto em ensinar os conteúdos da cultura, é que eu não havia visto, nunca, uma bailarina. Mas já havia vivido a dança antes da dança: os Maxacalis entrando na cidade, em movimentos circulares, com alguns panos vermelhos. E eu ali, espremido num canto do muro, vendo um povo entrando no mundo, para logo desaparecer em seguida. É claro que pequena boneca girando naquela roupa era parte de um maquinismo de encanto, enquanto os índios eram o encantamento dos corpos num cotidiano. Entre uma coisa e outra nenhuma ligação. Mas, hoje, posso ligar esses pontos díspares 

E havia as procissões, os longos percursos a pé seguindo um deus que já fora menino e agora iria ser sacrificado diante da multidão.  

Porém, um dia eu fui apresentado ao teatro. No jardim de infância, me disseram que iríamos a uma festinha. Cada um deveria carregar sua pequena cadeira na cabeça até lá. Era um auditório. E ocorreram coisas diante da gente. Não guardo nenhuma imagem disso, apenas de um certo colorido e de gente falando quase parada. E que era, antes de tudo, muito chato. Cadê a festa que prometeram? Não aconteceu.

Mais tarde me fizeram representar num teatro. Pânico total. Eu só me lembro que, diante de um monte de gente assentada, olhando para mim, como ocorrera antes na festa que não era festa, eu deveria entregar um presente. Eu era um dos Reis Magos. Me fizeram crer que isso era importante. Mas não vi sentido algum naquilo. Impossível apreender pelos sentidos aquela ação. Apenas me comportava conforme as regras. 

Passei, muitos anos depois, e cada vez mais, a buscar esse teatro antes do teatro. Ou seja, uma performatividade e uma teatralidade que, imanentes ao movimento da vida, são expressões que podem nos levar a uma visão renovada das questões estéticas. Minha geração viveu o brincar em meio à cultura das ruas. Não temos mais isso, mas podemos ver que movimentos de imanência nosso tempo carrega consigo.

Para tanto, é necessário sempre, a toda hora, desconstruir os códigos e buscar a experimentação. E junto a ela, entrar em contato com as formas de vida que resistem à desapropriação dos sentidos. Inventar modos de brincar.

 

 

2 ideias sobre “Teatro antes do teatro: o brincar e a cultura das ruas”

  1. Olá Luiz Carlos, como vai?

    O que você mostrou no teatro antes do teatro é que ele está na própria cultura criativa da criança. E acho que é bem isso. O teatro se faz na criatividade. O que a criança inventa, poe vida, alegria, se torna teatro e bem mais colorido talvez que os de antigamente apresentados a ela na escola.

    Me lembro, eu, criança, montando teatro em casa com umas amigas. Fico pensando hoje como tive coragem. Minha mãe, sempre solícita (e é até hoje aos 86 anos e meio), dando “corda” à minha imaginação. Pipoca e suco eram cobrados no meu teatro. De uma piada de “fantasmas” eu fiz o teatro (talvez antes do teatro) para meu publico mirim e suas mães. Muito inocente, foi a ponte para amizades de muitos anos.

    As brincadeiras de rua nem me fale. Fico triste por minha pequena não “ter” a rua para brincar como eu tinha e levava várias vezes para casa meu dedão do pé com o tampão arrancado. E que importa? Era nosso maravilhoso mundo do brincar, livremente!!!

    Abração e boa semana pra você!

  2. Sim, Teresinha

    Trata-se da noção de teatralidade, que não se reduz ao teatro, se é que podemos falar de um único teatro, senão de teatros. E também, de teatralidades. Uma destas é a do cotidiano, da cultura.

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