Um educador: José Pacheco

O Instituto Libertas de Educação e Cultura, de Belo Horizonte, convidou o educador da Escola da Ponte (Portugal), José Pacheco, para fazer parte de sua equipe. Zé da Ponte, como ele mesmo se autodenomina, fez uma conferência aberta à comunidade escolar, no início de fevereiro. Há muito tempo eu não ouvia alguém falar de educação com tanta leveza, humor, inteligência e abertura criativa para o novo.

José Pacheco realizou, diante da audiência, um exercício de escuta qualificada e atenção plena. Contou rapidamente o que significou para a educação o projeto Escola da Ponte. Zé está criando novas pontes, como é o caso de sua parceria com o Instituto Libertas, passando a residir em Belo Horizonte por um bom tempo. Bons ventos. Aliás, quando a utopia parece sumir no horizonte, deparar-se com um educador como Zé da Ponte traz ânimo e vontade de criar, de inventar e continuar em frente.

O que ele nos disse pode ser resumido rapidamente no seguinte: de como um grupo de educadores realiza, numa das escolas mais públicas mais pobres de Portugal, após o desabamento da ditadura Salazarista pela Revolução dos Cravos, um dos mais inovadores projetos de educação de nossos tempos. As crianças viviam em extrema pobreza, muitas envolvidas na prostituição infantil, outras muito violentas, sem cuidados mínimos, cheirando a vinho e com piolhos. O ensino era tradicional, ou seja, baseado nas cartilhas de alfabetização etc. Esse quadro transformou-se num outro: essas crianças logo se tornaram as melhores, nos indicadores de aproveitamento escolar, em todo o país!

Relatar toda a conferência de José Pacheco é impossível. Mas posso dizer um pouco mais: de como ele valoriza a formação do ser humano em primeiro lugar – ou seja, de que podemos nos tornar melhores e não ficarmos reduzido somente ao aspecto cognitivo de desenvolvimento. Este não é negligenciado, antes pelo contrário, assume um aspecto mais amplo, justamente o da formação humana. A questão da autonomia, da valorização das assembléias democráticas, da prática e do exercício da transformação. Mas tudo isso é para dizer o seguinte: num momento, um professor perguntou ao Zé da Ponte qual seria o papel da educação física na educação que ele acredita e exercita. E José Pacheco responde que se um projeto obtém sucesso é porque ele tem a arte como centralidade. E disse, então, da importância da educação do movimento.

Por essa e outras falas, saí feliz. Aquilo foi um belo encontro. Que o José Pacheco possa fazer novas pontes para o futuro.

E para fechar, o trecho de um artigo do professor José Pacheco, que muito me tocou por falar da solidão produzida pela escolas, algo que foi um traço marcante da minha infância:

“Todas as escolas deveriam ser espaços produtores de culturas singulares, mas também espaços de múltiplas interacções, comunicação, cooperação, partilha… Sabemos que não é bem assim. As escolas são, quase sempre, espaços de solidão. O trabalho dos professores é um trabalho feito de solidão e a solidão dos professores é da mesma natureza da solidão dos alunos – professores e alunos estão sozinhos nas escolas.”

Mais referências:
Artigos do Professor José Pacheco em A Página da Educação
A Casa de Rubem Alves

6 ideias sobre “Um educador: José Pacheco”

  1. O Libertas está sempre me surpreendendo positivamente. é um privilégio oferecer aos meus filhos uma escola que tem como “amigo” o Prof Pacheco, pois foi assim que ele se apresentou aos pais. “Venho como um amigo, para aprender e sugerir”. Foi uma noite encantadora, inspiradora para todos os presentes.

  2. Saibam que o Libertas está fazendo uma grande aquisição com a Vinda do Zé da Ponte, tenho certeza de que BH ganhará muito com a vinda dele para estes lados.
    parabéns!
    Jane Patricia

  3. Isso é que é noticia boa!! Eu em 2005 tive oportunidade de ir à Escola da Ponte e acompanhar um pouco do trabalho por la. E fico feliz de lembrar que, se nao me engano, fui uma das primeiras pessoas a falar da Ponte pro e no Libertas. Na volta, fiz um mini-seminario com alguns pais e educadores do Libertas, mostrando minhas fotos e comentando. Torço pra que essa parceria de muitos frutos e contribuapra mudar o estado de coisas na Educaçao. Torço pra que as escolas deixem de ser lugares de solidao, como os Conventos e as prisoes aos quais a compara Goffman.

  4. Pessoas queridas,

    Respondendo ao primeiro comentário acima: realmente foi uma noite inesquecível. Saí de lá com mais coragem, para dizer o mínimo! Puxa, quantas vezes não ouvimos alguém dizer que mudar o rumo das coisas é impossível, idealismo…

    E concordo também com Jane. Uma aquisição importante – vai ser um marco na educação da cidade. Tomara que isso chegue na Educação Pública!

    Mais uma vez, Cláudia, você cutucando o novo, fazendo alvorecer! E fica nos devendo, no seu blog Quintarola, contar um pouco de suas trajetórias e encontros na Itália.

    Abraços,

    Luiz Carlos

  5. Entao, Garrocho, eu aqui em Milao estou trabalhando com duas italianas, uma designer e outra arquiteta. As tres juntas dirigimos a ProgettoQualeGioco, que é uma Associaçao Cultural voltada à Cultura Ludica e à Cultura do re-uso. Se voce ou seus leitores se interessarem em conhecer, o nosso site é o http://www.progettoqualegioco.it. Tem sido maravilhoso, to aprendendo um monte de coisas. Depois, em parceria com uma brasileira que colabora com a gente por la, a Chris Mazzotta, estou lançando meu primeiro livro infantil! Vai ser apresentado na Feira Internacional do Livro de Bologna, entre 23 e 26 de março, pela Ed. Callis de SP. To SUPER contente, é um sonho que começa a acontecer. Um abraço grande!

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