Arte contemporânea e educação: uma palestra de Celso Favaretto

Por Keith Arnatt - Arte Conceitual

O filósofo Celso Favaretto abriu o ano letivo na Escola de Artes Guignard, em Belo Horizonte (10.03.2010), com  a questão sobre a função da arte na educação. Para Favaretto, o que está implícito nessa pergunta é o caráter formativo da arte. E para ele, nada nesse campo está claro. Haveria uma espécie de “mitologia da arte”, que toma a arte como algo essencial para a formação humana, sendo que a escola seria o lugar marcado para esse encontro.  Celso abriu sua palestra perguntando se realmente “a arte seria indispensável à formação do educando”. E desdobrou a questão em mais duas: o que seria entendido como arte e o que poderia ser compreendido como formação. A exposição sacudiu concepções já conformadas, que se tornaram opinião dominante e senso comum. 

Celso Favaretto apresentou o objetivo geral de sua apresentação: questionar os pressupostos de uma espécie de “mitologia da arte”, baseada na crença de sua  capacidade em “matizar os excessos da razão instrumental”.  Ou seja, a relação entre arte e educação passaria necessariamente por um desejo de contemporizar os efeitos de uma educação que teria perdido os princípios humanistas. Um aspecto compensatório, portanto. Celso Favaretto apresentou os principais elementos dessa “mitologia”, tão presentes em nossos discursos sobre Arte-Educação,  confrontando-os com o campo da arte contemporânea. De minha parte, foi uma boa sacudida em conceitos que já estavam mofando.  Favaretto formulou, a partir disso, as seguintes perguntas: “A arte é indispensável para a formação do educando?”  Se respondemos de modo afirmativo, “o que vem a ser arte e formação?”

Favaretto passou, então, a discutir a “cultura estética na base do bildung (formação cultural) do iluminismo, como desejo de harmonizar os pólos da razão e da experiência sensível, tendo em vista a emancipação, a liberdade, e a felicidade. Enfim, todo um ideal de perfectibilidade do espírito humano, de seu aprimoramento infinito. formação é aquilo que, segundo Schiller, deve conduzir o homem, conjugando o mais alto (mundo inteligível) com o mais baixo (mundo sensível). A cultura como dignidade e máxima pureza dos princípios. Celso Favaretto lembrou também do jovem Marx, dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos e sua educação dos sentidos. E nesse momento eu viajei de volta aos meus 17 anos, quando li esse livro e me tornei, juntamente com as leituras de Erick Fromm, um apaixonado por Marx. O que precisou, mais tarde, ser equalizado por outras tantas vertentes do pensamento.

Favaretto disse que, em nossa educação brasileira, de predominância técnica e científica, a arte entraria como uma “estética da sensibilidade”, com o objetivo de “matizar os excessos da razão instrumental.” Temos, aí, segundo ele, uma “ética da identidade” calcando as bases desta formação. E para Favaretto, nossos padrões curriculares são baseados nesse ideal iluminista (da aufklärung)  nessa síntese de razão e sensibilidade.

Nesse ponto, Celso Favaretto propõe-se a pensar as questões da atualidade, procurando investigar o “insuportável da condição contemporânea”. Ele cita Michel Foucault, cuja crítica arqueológica e genealógica incide sobre essa dimensão, recusando justamente o transcendentalismo do “antropocentrismo do espírito das luzes”.  Traz ainda para esse plano crítico o pensamento de Lyotard.  O que se expõe, segundo Favaretto, é o pressuposto de que “o homem tem de ser reformado”, e “que o mestre venha ajudar a desenvolver o espírito na infância. Toda uma idéia que teria viria de Platão: reforma os reformadores. Na esteira de Marx: educar os educadores. Um sentido de formação cujas bases metafísicas estariam ativas: aprimoramento, engrandecimento do espírito, indo do particular para o universal. A forma seria o acabamento, a passagem do exterior para o interior e a unidade do sujeito da experiência. Dispositivo , para lembrar um termo de Foucault, que passa, então,  a ser questionado, tanto em sua idéia quanto em sua viabilidade no mundo de hoje. São “identidades e consensos” que se tornam abalados.

Logo surge, nessa postura crítica contemporânea, a destituição do sujeito, que seria, nas bases metafísicas, a garantia da unidade da experiência humana. Assim, os vínculos entre ética e estética tornam-se precários. Em vez de um sujeito, de uma substância, teríamos muito mais um processo de subjetivação, confluindo pensadores críticos como Foucault e Gilles Deleuze. E principalmente neste último, no lugar da unidade temos as multiplicidades e devires. Revoga-se a universalidade em proveito das singularidades. A arte aparece como um agenciamento. Arte como “potência do falso” (Deleuze). Em Nietzsche, inspirador desse plano crítico-criador do pensamento contemporâneo, temos que os homens inventam a arte para não morrer de verdade, lembra Favaretto.

E Deleuze iria mais longe ao mostrar que a arte não é um instrumento de comunicação. Como um povo por vir, teria antes um valor disjuntivo. Nem compreensão, nem adestramento, a arte também não tem a função de desenvolvimento da sensibilidade, esse plano do “inteligível confuso”, como pensado pelos iluministas. A radicalidade das vanguardas, diz Celso Favaretto, entra em ressonância com esse pensamento crítico e criador, como  “interruptores dos planos da sensibilidade e do entendimento”, de sua harmonia previamente estabelecida.  Lembrando Lyotard, Favaretto diz que um artista não é governado por regras definidas de antemão, por juízos determinantes. Cada obra estabelece, em sua singularidade, suas próprias regras. Favaretto refere-se, ainda, a Jacques Ranciére, que postula um pensamento que é um não-pensamento, um inconsciente estético. Um saber que é um não-saber. Não poderia, então, deixar Favaretto de também invocar Lacan nesse plano.

Celso Favaretto passa a perguntar, então, como se poderia “inscrever este pensamento (de um não-pensamento) no aqui e agora da educação da arte”. Ele olha para a platéia e diz: “os profissionais da arte é que podem responder”.

Isso porque, para Favaretto, estamos vivendo uma época de difusão de práticas e de acesso à arte e ao fazer criativo. São programas e projetos que enfatizam e que buscam uma arte aberta a todos. “Como facultar o acesso a uma experiência da arte, tomada então como um exercício de desorientação (desde Duchamp)?  Celso Favaretto desmonta mais um pouco dessa engrenagem que uniu modernismo e metafísica da formação. E é nesse plano que eu me pergunto se os arte-educadores estão dando conta realmente dessa crítica. Ou se estão, simplesmente, abraçando os pressupostos metafísicos, mesmo que apenas acreditando estar cumprindo com um projeto instrumental.

Favaretto vai mais longe um pouco. Ele situa toda essa vontade e desejo, presentes nos projetos e programas de democratização do acesso à cultura e à arte, num mundo em que se dá uma “esteticização generalizada”. O que é, segundo ele, próprio de nossas sociedades de consumo. Uma aplicação da arte às técnicas cotidianas, reestetizadas, então, pelas tecnologias. O que ressalta não o valor das obras, mas sim a maneira de sua apresentação, tornando os objetos e conteúdos indiferentes (Lyotard). Ou seja, o estilo torna-se o valor, acrescenta. Ele nos adverte que o público contemporâneo tem crescido e se ampliado pelas ações culturais, promovidas pelas diversas instituições. O lazer se associa a esse plano, numa espécie de “exercício superior da fantasia”. E ele pergunta: “como podem as instituições que promovem tais ações garantir as expectativas da arte e ao mesmo tempo satisfazer as necessidades de lazer?”  São meios, segundo ele, proporcionados pela difusão da fotografia, da TV, das “curiosidades perceptivas” proporcionadas pelas tecnologias etc.

“Afinal, qual é mesmo a nova função das experiências estéticas na atualidade?”  E Favaretto logo diz que, para quem busca o belo, é decepcionante. E ele dá o recado: “vivemos o fim do espetáculo fechado e estável”. Estaria aí, segundo Celso, o “crivo das experiências estéticas numa relação participativa do espectador com a obra”. Nesse aspecto, ele coloca o papel das experiências estéticas como espécies de “interlocutores”, rompendo com a “estética do belo”, e sua “promessa de felicidade”, para dar conta da “fragmentação e disjunção” de nossa contemporaneidade.  Não o vazio, adverte, mas sim o “vazio do ideal”, uma “paisagem desconhecida” a ser configurada, como uma “obscuridade do presente”.

São desvios que podem encontrar as fissuras da realidade, diz Favaretto. Por fim, fechando a sua fala, Celso diz que “a arte não é o lugar onde os valores universais resistem, mas sim onde se dá o trabalho das singularidades”. E isso acontece, diz ele, “através, ao lado ou a despeito das regras curriculares”.

Mais referências –

Isto é arte? Vídeo de Celso Favaretto para o Itaú Cultural.

Experiências estéticas e mundos cotidianos – por Mariana Lage

3 ideias sobre “Arte contemporânea e educação: uma palestra de Celso Favaretto”

  1. Realmente, palavras capazes de balançar as teias bem bordadas da aranha dos nossos pensamentos. Eu ando pensando na necessidade/importância do professor com formação específica nas áreas de arte. Muitas foram as vezes que ouvi o discurso de que para dar aula de arte era necessário ser artista. Traduzi esta informação para algo menos restrito: penso que para ser professor de arte é necessário se dar à experiência artística. Mas toda essa linha de pensamento que estava tecendo, revisando textos, conversando com colegas e confrontando com visões de pessoas que acham que é melhor o especialista ficar fora da escola, agora está ressonando como corda de violão. Recentemente, li Elliot Eisner “O que pode a educação aprender das artes sobre a prática da educação?”. Ao ler seu texto com as ideias do Favaretto, percebo que meu bordado está bem no começo… tendendo a se tornar um rizoma.

  2. Priscila,

    A pessoa que lidera processos de aprendizagem em arte realmente deve estar envolvida com a arte. Conheci uma professora de português que não se dedicava a qualquer obra de literatura!

    Porém, “ser um artista” passa também por uma espécie de codificação: quem pode fazer arte. E quase sempre pelo viés daqueles que estão inseridos no mercado e/ou circuito das artes. E há muitos artistas que não participam desses espaços: ou por terem uma visão crítica dos mesmos, ou por não se interessarem, ou por criarem seus circuitos e lugares de exibição que lhe são próprios (por exemplo, o graffiti) etc.

    Há mesmo um enfrentamento com a criação: que seja pelo fluir por entre asperezas, seja pelo atritar-se com o mundo, seja por montar num problema e com ele deixar-se ir… Há tantos caminhos, não é? Mas sempre um “afrontamento do caos” para “torná-lo sensível”, lembraria com Deleuze e Guattari.

    E então vamos tecendo rizomas, como você diz.

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