O brincar, o sensível e a arte

Imagem: Tomás Rotger

Estou às voltas mais uma vez com a questão: como se dão as passagens entre um plano de sensibilidade, próprio da cultura lúdica da infância, e o plano de arte?

Esses três planos não existem em relação de continuidade e nem se apresentam como coisas idênticas. Porém, todo um movimento da arte contemporânea tem nos levado a repensar as relações entre a arte e a vida. A separação entre arte e vida foi, durante muito tempo, algo dado. Do lado da vida a instabilidade, o efêmero, o que se desgasta e se perde. Do lado da arte, o que se conserva (pelo menos no espírito), o que transcende nossa existência precária. São essas fronteiras que passam a ser questionadas, tornando-se menos rígidas.

Entretanto, por onde buscamos a cultura deparamo-nos com a vida, e vice-versa. Podemos pensar a sensibilidade como direcionamento (educação) do viver e como estratégia da cultura. Não seria isso tudo o que os mais abismais pensadores-poetas se arriscam a inventar? Então, o sensível possui um lugar estratégico entre vida e arte. Mesmo que suas diferenças sejam colocadas , a usa aproximação mútua tem sido uma vontade contínua de experimentação. Artaud, para dar um exemplo, queria uma linguagem que tocasse a vida.

O brincar é a exploração do sensível, provisão do novo e potência de vida. Por um lado, o que vimos defendendo, tanto em educação  quanto em arte, é a importância e a autonomia do ator de brincar e de suas linhas de errância. Em termos de educação infantil, o brincar pode ser um “programa”. E mais: defendemos que o brincar possa seguir seus caminhos, sem se tornar excessivamente instrumentalizado, apesar das grandes contribuições que possa dar nessa direção também (jogos de aprendizagem, por exemplo). Por outro lado, acreditamos que o brincar oferece caminhos para a Arte. E como plano entre a vida e a cultura, produzido principalmente por crianças, o ato de brincar conserva aquilo que os ditames da sobrevivência adulta exclui: o pré-diferenciado. Ou seja, uma autêntica cultura produzida por seres que ainda não foram assimilados pelo universo do trabalho e cuja libido ainda é polimorfa.

Ao ler Proust e os signos, de Gilles Deleuze, muita coisa mexeu na minha cabeça e no modo de entender as relações entre a arte e o sensível. Todo um processo de aprendizado, no qual os signos, ou nossa interpretação da vida, culminam na excelência que é a arte. A partir da obra de Proust, Em busca do tempo perdido, Deleuze produz um texto maravilhoso sobre os signos e o aprendizado. Signos mundanos, signos do amor, signos das qualidades sensíveis, signos da arte. Um caminho de aprendizado no qual o signo da arte recupera e transforma todos os outros (mas sem negação, sem dialética).

Os signos sensíveis não são por si mesmo os signos da arte. Entra aqui todo um aprendizado para a arte e da arte. Então, por essas vias, o brincar por si só não seria arte. Porém, podemos colocar outra questão: a que se destina o lúdico na nossa civilização globalizada?

Uma resposta provisória, de modo pragmático e programático, colocaria o seguinte desafio: preservar o valor intrínseco do brincar e, ao mesmo tempo, fazer a passagem para os signos da arte.

Robert Filliou,   artista contemporâneo, disse uma vez que a “arte é o que torna a vida mais interessante que a arte”. O brincar é, para a criança, sua produção.  Diria, sua “produção artística”. No sentido também de algo que direciona a vida, assim como o faz a arte em suas instâncias mais elevadas. Necessitamos, então, de todo um trabalho com a dimensão sensível. O lúdico nos oferece esse caminho. E a arte nos proporciona o aprofundamento do nosso aprendizado da vida.

Mas tomemos muito cuidado: a ânsia pelo lúdico como “preenchimento de atividade”   leva à sua completa deterioração, tornando-se uma coisa sem vida. Quando estamos no plano da Arte-Educação, o sensível não pode ser reduzido à imagem do lúdico como “atividade de ocupação”. Nisso ele se trai completamente. O brincar sensível da arte é exigência pura da própria arte, não nos iludamos!

Se quisermos fazer a passagem do sensível para arte, precisamos trabalhar com a composição. Deleuze e Guattari diziam no seu último livro: “arte é composição”. Daí a necessidade de se evitar recaídas no espontaneísmo. Para tanto, o que proponho é o caminho dos estudos compositivos. O que pode aliar as qualidades sensíveis, a cultura lúdica e os planos próprios da experiência estética.

Mais Referências

DELEUZE, Gilles. Proust e os signos. Tradução de Carlos Piquet e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? Tradução de Bento Prado Jr. E Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992

O brincar como exploração sensível e a Arte-Educação

Estudos de composição cênica e corporal (os estudos compositivos)

Arte-Educação e Ernest Fenollosa

2 ideias sobre “O brincar, o sensível e a arte”

  1. Olá, tenho uma brincante nascendo aqui em Niterói, sou amiga da Paula Bonatto! Te envio a foto como resposta a tanta afinidade encontrada aqui!! Até logo!

  2. Parabéns, Simone

    E que você possa aprender com essa brincante!

    Aproveite!

    Abraços

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