Teatro performativo com crianças

children in wal

Outro dia pude vivenciar uma experiência de teatro performativo com crianças.  O que vem a ser este tipo de criação cênica e corporal? Antes de tudo, trata-se de um plano contaminado pela Arte da Performance. E neste caso deparamo-nos, ainda, com as inúmeras  tentativas de classificação. Porém, mais intenso e expressivo é pensar por devir,   limiares e transformações… Isso não nos impede, evidentemente, de buscar definições. Não por contornos num sistema de encaixe, mas por vizinhanças e variações contínuas. Ou seja, fazendo-se em movimento. 

E é justamente um pensamento em movimento que a criança realiza. O pequeno concerto físico e experimental, realizado com aqueles meninos e meninas,  confirmou as minhas intuições, trilhas que venho seguindo ao longo dos anos. Em vez de ensinar às crianças os fundamentos de um “teatro”, entendo que são as linhas de errância e desejo de movimento das crianças, seus mapas intensivos, que fornecem  elementos para a criação artística.

Não vou formular aqui um programa nessa direção. Apenas indico alguns traços dessa experiência. E muito  porque se tratou de um encontro  rápido.

Era um grupo de umas dez ou pouco mais crianças por volta dos seus 08 a 11 anos.  Estávamos no Seminário de Bio-estratégica, montado pelo Restaurante e Centro de Alimentação Vitalícia Fonte de Minas. Com a presença do professor Tomio Kikuchi e outros, o evento se deu no condomínio de Pasárgada, em Belo Horizonte. Um lugar muito aprazível, onde as crianças tinham tempo e espaço para atividades livres e espontâneas.

Dentro de uma programação bastante carregada, quando eu mesmo não queria perder as atividades e conferências, era necessário agir em tempo rápido, pois a “janela” para os  eventos de arte estava marcada para  aquela noite. Já havia, naqueles dias, realizado um pequeno encontro. Os meninos e meninas  respondiam com uma rapidez incrível. Afinal, não era nada muito diferente daquilo que mais faziam: viver o movimento de modo intenso.

No encontro anterior que tive com o grupo, percebi que a atividade exploratória e criativa incendiava o grupo, mas quando havia um exercício que serviria não para apropriar-se do presente e sim para algo futuro, a energia caia. Não estávamos numa oficina com continuidade e, portanto, não cabia estabelecer relações desse tipo: fazer algo agora que somente servirá depois. Aliás, cada vez mais percebo que a composição deve ser no instante (instant-composition). Ficou a dica: a hora de acontecer alguma coisa é agora e não depois!

Mas como assim? O que é teatro físico e performativo? Pedi a um garoto para subir na imensa mesa de madeira, que rodeávamos sentados.  Ele respondeu prontamente  andou  de um lado a outro. Pedi que ele fizesse repetidamente. E aqui se encontra um segredo desse tipo de composição não-dramática: trabalhar com repetições minimalistas, loops, ritornelos etc. A repetição cria uma zona de reverberação, propicia fases e defasagens e por aí vai. E eu fiz a leitura: temos uma paisagem, a ocupação de um espaço e de um tempo, um teatro que é feito neste lugar, para este lugar!

Dividimos os grupos que passaram a explorar os diversos espaços internos e externos. Depois de certo tempo,  fomos todos visitando um por um desses locais. Um grupo foi audacioso e radical: queria ocupar uma ponte tipo mata-burro, com ações em baixo. Mas foi um pânico: o espaço era cheio de espinhos, uma criança já havia cortado o dedo e, o que complicava um pouco, anoitecia e não dava, logicamente, para ver se a situação era segura. Tive que sugerir ao grupo procurar outro lugar.

Dois grupos conseguiram desenvolver alguns traços que apontavam para o que chamo de estudos compositivos. Um formado por meninas, logo criou numa sala uma série de movimentos acrobáticos, baseados em rolamentos e corridas. Depois, pulavam pelas janelas e sumiam. Os meninos exploraram o mezanino. Um deles subiu nos andaimes de madeirado teto e de lá executava um roteiro de ações repetitivas. Um grupo entrava  carregando um garoto e o jogava ao chão. Este começava, então, a realizar um movimento coreográfico no solo, girando as pernas como os ponteiros de um relógio. Os meninos dirigiam-se a umas  poltronas que ficavam logo debaixo do menino que se movimentava no tento. Eles realizam vários ciclos de ações, passando pelas poltronas, sem tocar o chão. Um garoto tomava chá, sendo servido repetidamente por mim. E um grupo de adultos tocava piano, cavaquinho e pandeiro.

Tudo resultou de uma troca entre provocações minhas e respostas que as crianças davam. E dentro destas eu ainda fazia uma ou outra intervenção. Afinal, quando trabalho com crianças, eu faço parte do jogo criativo. Vou junto e sujo a minha roupa.

O que tenho observado é que o modelo de teatro dramático é quase sempre considerado como sendo “o teatro”. A forma dramática é entendida como parte da natureza da criança. Ora, não é bem assim. O movimento exploratório e sensível é que faz parte das configurações infantis. Obviamente que isso possui uma conexão cultural, como a que se realiza, por exemplo, com as artes plásticas. Entramos, portanto, na questão de uma educação para a arte do movimento intensivo e livre. Nesse sentido, toda criança dança. Obviamente que isso depende do nosso conceito do que é dançar. Por isso, volto a insistir, há um caminho de teatro físico, performativo e experimental, que parte da própria cultura de movimento da criança.

A criança, quando brinca com o corpo em movimento, torna-se um acrobata afectivo.

3 ideias sobre “Teatro performativo com crianças”

  1. Garrocho, que instante de paraíso rever-te virtualmente, trabalhando com o prato do dia de sempre… a expressão, composição, do corpo no instante. Quando te conheci e trabalhamos no saudoso Balão Vermelho, este conceito eu ainda não o sabia, mas via seu trabalho com “minhas crianças” e me deliciava ao ver os derramamentos de vibração corporal e emocional… Que bom que te achei, produzindo muito conhecimento com as crianças para nos tornarmos educadoras um pouco melhores, neste tempo de tão pouco tempo pra nós. Abraço!
    Edilene.

  2. Edilene,

    Que bom receber sua visita!
    O Balão Vermelho foi mesmo a nossa escola. Quanta coisa eu aprendi ali…
    Um mundo.
    Há tardes e mil sóis girando na minha cabeça… E muitos sacis, heim? A compreensão dos rituais infantis como inventos-mapas-criações. Os espaços entre subjetividade e objetividade: o brincar. Não é?
    E são sempre os instantes que sempre nos surpreendem, a despeito de tanta previsibilidade arranjada.
    Um grande abraço

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