O recreio e a culpabilização do movimento

Num artigo intitulado “Recreio e educação” (Folha de São Paulo, 18.10.2011), Rosely Saião comentou o castigo sofrido por uma aluna, por descer as escadas correndo. A menina, de dez anos, foi obrigada a escrever 500 vezes a frase “Não devo correr”, além de ter ficado seis dias sem recreio. A psicóloga e ensaísta faz uma análise do recreio, que é por natureza dado à movimentação intensa das crianças, mostrando em seguida que a punição não é de modo algum educativa. E mais do que isso: revela o fracasso da missão pedagógica.

O que seria um “bom recreio”? Rosely responde: “digo que se um velho ou um bebê for colocado no meio do espaço e sobreviver sem escoriações é porque as crianças fazem um bom intervalo”.  A autora observa que “a criança tem energia e precisa gastá-la”. Contudo, o senso comum diz que, para isso, elas precisam “correr, gritar, pular”.  Rosely mostra que não é bem assim, pois a criança acaba por ficar mais agitada. Haveria outros modos de liberar essa energia, mas “perdemos a mão na hora de ensinar”. Não seria pela proibição, ou pela mera verbalização que se conseguiria educar o movimento da criança. Para a ensaísta, deveríamos ser mais precisos. E que deveríamos ter, na hora do recreio, “mais educadores por perto, não apenas inspetores”. E conclui dizendo que “as escolas precisam reconhecer que a hora do recreio é uma excelente oportunidade educativa e, como tal, exige planejamento, objetivos, estratégias e um ambiente organizado e minuciosamente preparado para o que pode acontecer”. 

Concordo com Rosely Saião e acrescentaria: precisamos de uma educação do movimento. E ainda digo que esse “ambiente organizado e minuciosamente preparado” deve incluir os acasos e as errâncias, próprios da liberdade de experimentação. Isso exige que os educadores sejam preparados para uma vida que foge aos controles do mundo adulto e de sua ordenação. As crianças ainda não estão desvitalizadas, como a maioria dos adultos.

A culpabilização do movimento é uma norma entre os adultos, já observava La Pierre. Não há experimentação sem tropeços,  choques, desvios e surpresas. Enfim, o encontro é de natureza molecular – comporta agitação, caos e variação. Entretanto, parece que muitas escolas e educadores somente concebem uma dicotomia: de um lado, conduta normativa e regulada, de outro a completa desorientação. Eles não foram educados para entender que o caos é criativo e que a vida do corpo, como as crianças a experimentam, já traz em si uma orientação.

Não há nenhum espontaneísmo nessa ideia. Ao contrário, a existência instrumentalizada e ausente de explorações sensíveis por parte do mundo do trabalho, no qual os adultos estão inseridos e pelo qual moldam a reprodução da vida, é que não pode compreender isso. Mas, curiosamente, o próprio universo do trabalho mostra-se, cada vez mais, modificado pela criatividade. A escolas que não conseguiram se renovar é que não podem compreender isso.

Mas não é somente de jogos organizados que se faz uma educação do movimento. Não se pode, é claro, negar sua importância. Porém, é preciso perceber a importância do brincar exploratório e sensível contém esse programa. Basta acioná-lo. E os educadores deveriam ser educados a compreender o que se passa na cultura lúdica da infância, com suas linhas, mapas de experimentação e configurações de territórios existenciais.

Pergunto: estamos preparados para entender  e praticar  isso?

Mais referências

– Recreio educativo. Por Rosely Saião. Folha de São Paulo, 18.10.2011.

 – Lembranças de um recreacionista (II). Por Luiz C. Garrocho

– Crédito da imagem: Jenni from the block

 

 

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